Não é um pronunciamento ex cathedra Petri sobre uma questão de fé ou moral (e tais declarações são raríssimas, e Bento XVI não fez nenhuma delas), e portanto está fora do escopo da infalibilidade papal. No entanto, o Papa é o pastor de todos os cristãos católicos, e suas opiniões não podem ser simplesmente descartadas em nome de uma opinião ou preferência pessoal, pois a Igreja reconhece que, mesmo em ordenamentos pastorais - em princípio falíveis - a Igreja (sob o cajado do sucessor de Pedro) conta com a assistência do Espírito Santo.
"Que coisa horrorosa tomar o partido dos israelenses, se eles não são nem cristãos."
Marcos, não dê uma de donzelinha ultrajada. O fato é que não há nenhuma razão a priori para se tomar o partido de Israel, a menos que se o faça por dogma religioso (graças a Deus não é o caso dos católicos). Uma apreciação isenta da questão não começa por tomar lados, mas por avaliar as condições objetivas e atribuir a culpa a quem tem culpa (na sua justa medida).
Já disse: ninguém aqui está tomando o partido do Hamas, e nem sequer defendendo que Israel abra mão do seu direito de defender-se. Estamos somente questionando a legitimidade dos meios usados por Israel.
Repito: os fins nunca justificam os meios. Mesmo porque a obtenção do fim é sempre estipulativa, projetada, ao passo em que o uso do meio é concreto e imediato (além de não ser, por si, garantia para a realização do fim em vista). O meio mau é um mal feito, realizado, efetivamente escolhido. Enquanto um fim bom é, na melhor das hipóteses, esperado. Ainda que lançasse uma bomba de hidrogênio sobre a faixa de Gaza, Israel não terá garantido a sua sobrevivência. Mas a matança de civis que realizou é um fato ineludível, inescapável, e responsabilidade sua.
"No entanto, o Papa é o pastor de todos os cristãos católicos, e suas opiniões não podem ser simplesmente descartadas em nome de uma opinião ou preferência pessoal, pois a Igreja reconhece que, mesmo em ordenamentos pastorais - em princípio falíveis - a Igreja (sob o cajado do sucessor de Pedro) conta com a assistência do Espírito Santo."
Talvez por isso que ele tenha se pronunciado de maneira prudente, fazendo um apelo para que larguem as armas, sem no entanto tomar partido. O que o cardeal disse - se é que ele disse o que foi noticiado - destoa até no tom do que o papa tem dito.
Se por um lado protestantes adoram defender Israel, indo além ao enxergar legalidade divina nas suas atitudes - até parece que a Antiga Aliança ainda é válida -, muitos católicos, sustentados nesse incondicional, e muitas vezes caricata, defesa acabam pendendo para o lado pró-palestino.
Eu defendo Israel mas, em nada, minhas justificativas se assemelham a esse incensamento que "protestantes e maçons" fazem do Estado israelense. Ademais, a honestidade ao mesmo tempo me obriga a ser um radical defensor da existência da Palestina enquanto Estado, com estruturas institucionais etc.
Meio tarde para ressuscitar o defunto tópico, mas somente a título de esclarecimento:
A matança de inocentes não é um proprium da guerra, mas o é de certas táticas de guerra, e eis de onde vem todo o problema.
No mais, sua afirmação "Se a reação é legitima, os meios(sejam eles quais forem) sem os quais ela não pode ser levada a cabo tb é legítima" não se sustenta. É como eu tinha insistido: um fim legítimo, e mesmo a sua mais urgente necessidade, não justifica o emprego de um meio essencialmente corrupto, qualquer que seja ele.
Distinçãozinha aristotélico-escolástica básica: não é um proprium no sentido primitivo, mas no secundário e analógico, já que não é propriedade exclusiva das referidas táticas de guerra.
Preocupar-se com civis <> Não tomar qualquer curso de ação que implique necessariamente (mesmo não o tendo como objetivo principal) na morte de inocentes.
É claro que as ações de Israel são mais "cuidadosas" em relação às populações civis que as do Hamas. O que, de per se não as justifica.
Ainda que fossem o único meio de defender-se ou defender sua própria população civil, seriam condenáveis (embora de culpabilidade talvez circunstancialmente atenuada).
Se, por outro lado, são em alguma medida excessivas (como tendem a ser as reprimendas de uma nação constantemente acuada e com recursos militares suficientes para reagir com a respectiva virulência) e, do ponto de vista logístico, pudessem vir a ser substituídas por ações menos destrutivas, a culpabilidade sofre um aumento sensível.
Eu nem estou entrando nos pormenores militares e estratégicos da questão, mesmo porque não tenho o devido conhecimento para opinar, mas restringindo-me ao aspecto moral. E nesse ponto, mesmo que a distribuição das culpas não seja equitativa, há motivo suficiente para dar razão ao Papa e ao cardeal Martino.
Mas afirmo, sim, que, havendo um único meio para prevenir-se da própria destruição, este meio pode ser condenável. Nem todo meio de proteção da própria existência constitui-se em legítima defesa. O assassínio (mesmo não desejado, mas conscientemente executado para atingir outros fins) de inocentes nunca constitui um meio lícito de defesa.
Vou trazer aqui uma citação de Golda Meir, que li em outro contexto:
"nós podemos perdoar os árabes por matarem nossas crianças, mas nós não podemos perdoá-los por nos forçar a matar as suas crianças. Nós somente teremos paz com os árabes quando eles amarem suas crianças mais do que nos odeiam".
Eu digo para lerem o que escrevi pelo único motivo de que me sinto mal compreendido ou mal interpretado, de acordo com o que se tem afirmado que eu defendo. É claro que eu posso estar errado, mas para asseverá-lo é preciso antes que se me interprete de maneira adequada.
Em momento algum eu afirmei que a não-reação é sempre moralmente aceitável. Pelo contrário, eu disse:
Quando a guerra é justa (i.e., não configura guerra de agressão, mas de defesa ou - em casos especiais - de prevenção) e, além disso, as eventuais vítimas inocentes resultam de acidentes e não de medidas premeditadas e conscientes, o problema não se coloca. Pois, em primeiro lugar, o embate se faz rigorosamente necessário segundo as estritas exigências da justiça (sendo neste caso a recusa a combater condenável) e, em segundo lugar, as medidas cabíveis são tomadas para evitar toda baixa de civis inocentes.
É como disse o cardeal Martino: «Os mísseis do Hamas não são confetes. Condeno-os. Israel tem certamente direito a defender-se e o Hamas deve ter isso em conta. Mas o que dizer quando se matam tantas crianças, quando se bombardeiam escolas das Nações Unidas, ainda possuindo uma tecnologia que permite distinguir uma formiga sobre a terra?»
Não se trata, em todo o caso, de somente pôr na balança as razões e desrazões de cada lado, e aí legitimar qualquer ação daquele que se sai com índice positivo mais acentuado. Eu não sou sonso ao ponto de defender o Hamas ou afirmar que Israel não tem o direito (pelo contrário, julgo que tem o dever) de reagir. Todo o problema está no modo de reação, e o fato de que os palestinos se valham de métodos tanto mais perversos e imorais não justifica que Israel recorra a meios de guerra suja, por mais legítima que seja a sua causa.
Daí a procedência da declaração de que ambos os lados são culpados, que é absolutamente válida, ainda que a distribuição das culpas possa ser brutalmente desigual.
Eis todo o problema, Adermir: ninguém pode forçar o exército israelense a matar crianças árabes (conscientemente, e essa consciência transparece a cada declaração), e uma tal matança é, independentemente das circunstâncias, intrinsecamente condenável.
Só um esclarecimento, para evitar mal-entendidos:
Pois bem: se Israel tem o dever de defender-se por um lado, e por outro não tem o direito de bombardear escolas e hospitais improvisados como postos de combate por seus adversários, como fica a coisa?
Primeiro: o dever de defender-se é sempre condicionado pela possibilidade de recurso a meios lícitos (moralmente falando). A idéia de buscar um bem honesto (qualquer que seja) servindo-se de meios desonestos descaracteriza automaticamente a sua honestidade. Segundo: há que se considerar se há a mais estrita necessidade de desempenhar as ações de defesa que têm sido tomadas (ações de puro revide não estão inclusas) para que a culpabilidade, se não de todo eliminada, seja maximamente atenuada. Este último ponto está muito longe de ser estabelecido, e como tenho falado: não existe nenhuma razão para assumi-lo a priori exceto por uma tomada de posição rígida e dogmaticamente partidarista.
"O problema é que o papa e o cardeal também não têm esse conhecimento, e opinam."
Conjectura sua. O Papa não é somente um líder religioso, como também um chefe de Estado, e devidamente assistido por especialistas nesses assuntos. Quanto ao cardeal Martino, trata-se de um ministro desse mesmo Estado responsável por tratar justamente de semelhantes questões.
"Todo esse argumento então está se sustentando na idéia de que os danos colaterais podiam ser evitados."
O problema, aí sim, é que os danos não são meramente colaterais. Não são simples contingências incontroláveis de situações de guerra, mas ações militares conscientes e planejadas, com conhecimento expresso de que os prédios bombardeados são ocupados por civis.
Um confrade (que deve ter algum motivo para não intervir pessoalmente) pediu-me para sugerir a situação hipotética "de um Rio de Janeiro do futuro no qual as facções do narcotráfico já terão se tornado organizações terroristas análogas ao Hamas e Hizzbollah: nesse caso será lícito à PM carioca ou às Forças Armadas brasileiras bombardear escolas e hospitais nas favelas? Ora, os traficantes permanecem soltando morteiros e dando tiros de lá dos morros, tiros esses que atingem pessoas no 'asfalto'. Não se pode tolerar isso. Portanto o Estado tem o dever de combater esses terroristas traficantes, mesmo que pra isso precise bombardear as favelas e inclusive as escolas e hospitais."
É claro que tais medidas são absolutamente inaceitáveis, do ponto de vista moral (por mais que se "expliquem" do ponto de vista estratégico).
Em nenhum momento eu afirmei que o que o Hamas faz é "legítima defesa".
Escrevi antes:
O fato de não se poder distinguir os alvos não legitima os ataques, pelo contrário (isso me lembrou aquela passagem do Gênesis em que Abraão interroga a Deus: "e se houver 50, 45, 30, 20, 10 justos, não se poupará Sodoma?", ao que o Senhor responde: "em atenção a estes, não a destruiria").
Não é justificável matar inocentes sob a alegação de que é a única maneira de atingir os culpados (e mesmo de defender os seus inocentes). Não se justifica bombardear uma escola cheia de crianças porque há terroristas ocultados em seu interior.
Os israelenses sabem que têm atingido crianças e outros civis inocentes, e nem por isso reduzem no mínimo que seja a truculência dos ataques. A situação é verdadeiramente calamitosa, e Israel não cessa os seus ataques.
Concordo que se busca fazer a guerra assimétrica. Concordo que os palestinos expõem seus civis como escudos e os israelenses não o fazem. Concordo que há uma cobrança moral em relação a Israel que não se faz em relação ao Hamas.
Acontece que entre a justiça e a injustiça há uma assimetria radical. Não é lícito jamais empregar meios injustos, desonestos, desumanos, para combater quem quer que seja, ainda que seja o oponente mais desonesto, injusto e desumano concebível.
Aliás, a contagem de vítimas é um aspecto inteiramente acidental da questão. Poderia até acontecer (como por milagre) que as ações de Israel não produzissem uma única vítima inocente, mas tendo-as executado deliberadamente na expectativa reconhecida de que as fariam, não há a mínima possibilidade de justificar-se.
É como eu disse antes: um policial não pode, para atingir um seqüestrador, atirar deliberadamente na sua vítima (mesmo que fosse a única possibilidade de detê-lo).
Imagine uma facção malévola na qual cada integrante SÓ ataque com uma criança inocente amarrada em seu corpo. E cujo propósito seja matar todas as crianças inocentes que encontrar pela frente.
Imagine que para deter todo e qualquer integrante deste horrendo grupo seja IMPOSSÍVEL evitar a morte da criança inocente amarrada nele.
E imagine que, caso você não o detenha, ele vai matar TODAS as crianças da sua família. Você está lá com uma pistola na mão, e se atirar mata, junto com o bandido, o inocentinho que está amarrado nele. Inevitavelmente.
Mas se NÃO atirar, ele mata todas as crianças da SUA família.
NOW temos um paralelo razoável.
Eu NÃO VOU perguntar se você atira ou não, é lógico - vou perguntar de quem você acha que é a culpa pela morte da criança amarrada no bandido.
Não se trata de uma comparação de culpas, em absoluto. O pessoal aqui às vezes tende a pensar como Marcos Alberto: em toda situação de conflito há um mocinho e um bandido; uma vez assumidos os papéis, pode o mocinho valer-se de quaisquer recursos à mão para deter os planos malévolos do vilão.
Na situação do policial/refém, poder-se-ia, claro, dizer que a culpa da morte da vítima foi primariamente do seqüestrador, já que foi ele quem provocou a situação. Isso, contudo, não elude a culpa do policial.
Não se pode tratar o problema simplesmente como uma questão de "quem está mais certo". Ainda que se estabeleça inequivocamente um resultado, aquele que está mais certo não pode se servir de meios imorais para atingir seus objetivos "mais justos".
Além do mais, é, pra dizer o mínimo, controverso que as referidas ações militares do exército israelense (com todo o seu escopo e dimensão) sejam absolutamente inevitáveis. O paralelo não é evidente a priori, e ainda que houvesse uma correspondência estrita e rigorosa, isso não justificaria (como nada poderia justificar) as ditas ações (que incluem bombardeios de escolas e hospitais sabidamente ocupados por civis inocentes).
Infelizmente não disponho do tempo e da persistência do Alberto Leopoldo para seguir argumentando ad nauseam, o que me obriga a ser sucinto nas intervenções. Daí ter puxado uma citação sem dar maiores detalhes, até porque ela fala por si só. Discuti-la, como você fez, é retirá-la do seu devido contexto.
Agora, é preciso colocar ordem nas argumentações, sob pena de tergiversarmos e ficar o papo infindável e inconclusivo como tantos outros. Há duas coisas que quero considerar.
Primeiro, a declaração do Cardeal: ele não falou das práticas bélicas de parte a parte nem discutiu as causas da situação, mas sim fez um raciocínio analógico segundo o qual a situação da faixa de Gaza se assemelha a um campo de concentração. Campos de concentração não foram usados exclusivamente pelos nazistas para exterminar judeus, mas sim para alocar prisioneiros de guerra; uma região cercada, com restrições à livre circulação e sob tutela militar guarda, sim, semelhanças com campos de concentração, mas a declaração se torna infeliz quando se lembra sua trágica utilização como campo de trabalhos forçados e assassínio em massa. Talvez não fosse a intenção do cardeal aludir a isso, mas foi uma frase infeliz pelas evocações que atrai.
Segundo, o problema moral em si: a moral não pode ser tida como uma abstração. É fácil ser moral quando se pode escolher com um único critério, por exemplo, decidir matar ou não alguém; é o tipo de discussão que se coloca, por exemplo, quando discutimos a validade do aborto.
No entanto, as escolhas morais se tornam mais complexas quando há conflito de valores, ou de direitos; é imoral matar, mas também é igualmente imoral deixar-se matar; o próprio Alberto Leopoldo reconhece a legitimidade da reação, e também admite que a reação não precisa ser proporcional à ofensa, já que há bens jurídicos e morais de ordem diferente entre as partes. Então, a questão está em uma abstrata "imprecisão" da reação, já que atinge alvos civis, e crianças entre eles.
Debater desse modo é agir conforme aquilo que OLAVO DE CARVALHO chama de GUERRA ASSIMÉTRICA: para o inimigo, todos os deveres são exacerbados, todas as faltas são severamente julgadas e todos os erros são escandalosamente apontados; já para o inimigo, os deveres são relativizados, as faltas são perdoadas e os erros ocultados ou minimizados.
Nosso amigo nem sequer se preocupa em responder ao comentário acerca da desproporção entre o que ocorreu em Israel e o que ocorre nos próprios países árabes no tratamento da questão palestina; massacres em massa, bombardeio indiscriminado de uma cidade inteira com mais de 30.000 vítimas, absolutamente desproporcionais, são completamente esquecidos, não merecem comentário nem condenação moral.
A proporção de mortes civis em Gaza é menor do que a proporcionada por um mês de ação de criminosos no Rio de Janeiro. E nem sequer o exemplo que mencionou as favelas cariocas como alvo de bombardeio, argumento de que nosso amigo se municiou por meio de algum ventríloquo, é válido para a questão, porque se é verdade que não estão jogando bombas lá, os tiroteios que acontecem não são exatamente cirúrgicos em só atingir as quadrilhas de traficantes. ALIÁS, quando a polícia age com mais rigor nesses locais e morre algum inocente, a gritaria é MUITO semelhante... efeito da MESMÍSSIMA guerra assimétrica que move o pensamento "pogressista" deffe paif...
A sua primeira postagem merece poucos retoques somente. Primeiro, que todo o alvoroço em torno da declaração do cardeal deveu-se ao fato de ela ter sido retirada de seu contexto de emissão, e buscou-se antes condená-lo a atentar ao que ela poderia ter a dizer em seu favor. A comparação, como qualquer outra, é claramente imperfeita, mas não creio ter sido infeliz, posto que o cardeal pretendia enfatizar justamente a calamidade humanitária configurada. Em todo o caso, trata-se de juízo de valor (meu ou seu).
Mas quando você afirma: "Então, a questão está em uma abstrata "imprecisão" da reação, já que atinge alvos civis, e crianças entre eles", você põe seu post a perder. Não se trata de uma abstrata imprecisão, trata-se de uma concretíssima violação dos parâmetros da guerra justa, com mais do que concretos resultados na forma de vidas inocentes ceifadas. O fato é que Israel sabia da existência dos civis, sabia tratarem-se alguns alvos de escolas e hospitais e não se absteve de executar os ataques, na plena ciência de fazer um grande número de vítimas inocentes. Se isso é uma "abstrata imprecisão", eu não sei mais do que se está falando.
Quanto ao segundo post, eu já falei: é evidente que há aplicação das táticas de guerra assimétrica, é evidente que os métodos do Hamas são mais desleais do que os das forças israelenses. O problema é que vocês não conseguem separar seus raciocínios de seu engajamento pessoal. Eu fiz questão de ressaltar que não pretendo conferir qualquer legitimidade às ações e táticas do Hamas, e não se trata em absoluto de tomar partido, mas de tomar os fatos pelo que são.
Eu realmente não sei por que o "ventríloquo" referido não se manifestou pessoalmente no tópico, mas usei-me de sua analogia (que aliás se assemelha bastante à que já havia usado do seqüestro, só que em proporções ampliadas) porque a reputei judiciosa, e não ligo para assumir a autoria de todos os meus argumentos se realmente posso tomar outros bons de empréstimo a outrem.
Mas o que realmente importa é que a sua análise da analogia é equivocada. A questão não tem a ver com mortes acidentais de inocentes em meio a campanhas militares, mas sim com a morte visada (ainda que não desejada) desses mesmos inocentes a fim de consolidar um objetivo militar. Mortes acidentais são lamentáveis, mas não bastam para configurar um quadro de inaceitabilidade moral ou um crime de guerra.
Tal objeção já havia sido respoindida. Repito o que já escrevi:
Eu não afirmei que qualquer operação militar deve ser suspensa pela mera consideração de que se põe a vida de civis em risco (claro, se houver ainda razão suficiente para sustentar os ataques).
Acontece que não se trata aqui de uma mera consideração de "risco" de perdas de vidas inocentes. Trata-se de um tipo de operação cuja realização é absolutamente e em princípio impossível sem derramamento de sangue inocente, condições estas conhecidas pelas forças israelenses (já que os corpos estão sendo contados e as ações permanecem as mesmas). A matança dos inocentes pode não ser o objetivo das ações, mas é um meio absolutamente necessário para a sua execução, e portanto, embora não constituam a essência destas, no entanto não se pode afirmar que sejam meramente acidentais.
O próprio fato de que a artilharia israelense precisa atravessar escudos humanos e detonar inocentes para atingir terroristas indistinguíveis no meio deles não enfraquece, mas reforça o argumento. O direito de defesa de Israel não está acima do seu dever de resguardar vidas inocentes e de se restringir ao uso de meios honestos e moralmente aceitáveis de procedimento. Se se tratasse de ações que poderiam em princípio ser executadas sem o sacrifício de vidas inocentes, e em que ademais todas as respectivas medidas para a sua proteção tenham sido tomadas, mas devido às contingências e imprevisibilidades do conflito acabam resultando em baixas civis, aí sim pode-se falar em resultados acidentais, e estes não seriam condenáveis por si mesmos.
Percebam que na minha argumentação não há nenhuma tomada de partido contra Israel ou a favor do Hamas. Pelo contrário, eu tenho reiterado que as táticas empregadas por este último grupo destacam-se pela sua perfidez e deslealdade, em que atingem níveis flagrantemente mais altos de gravidade do que as ações israelenses (que ao menos procuram reduzir o número de baixas civis, e aliás, conquanto injustificáveis, são empregadas como reação e defesa, que por si mesmas seriam legítimas e mesmo imperativas).
O problema está em que a atribuição de papéis de mocinho e bandido que vocês fazem impedem de ver qualquer coisa de minimamente condenável nas ações de Israel. O fato de se ter uma causa melhor não garante a impecabilidade dos meios empregados para obtê-la. E vocês preferem justificar o injustificável a sequer cogitar que Israel possa estar agindo mal.
Li uma notícia a tampos em que mulheres muçulmanas, apresentadoras de TV, exigiram o direito de uso do véu nas transmissões, me parece que no Kuwait, que é um dos países islâmicos dos mais permissivos nos costumes religiosos.
Mais uma vez, tu estás correto, Alberto. Isolando o problema moral, que é, no fim de tudo o único que conta, eu não vejo como discordar de ti. Se as duas únicas escolhas possíveis são fazer o mal ou permitir que ele seja feito, é ainda um pouco menos indigno sofrê-lo. Faz parte da civilização reconhecer que o bárbaro sempre terá mais meios do que a civilização, precisamente por ser bárbaro. E é melhor ir para o céu menos culpado do que entregar a alma para ficar um pouco mais na terra. Claro que é fácil falar e que eu não sou ninguém para pregar o martírio alheio (como os generais israelenses não têm o direito de aceitar o martírio dos seus civis, mesmo que não lhes reste uma alternativa moralmente lícita). E é isso que há de tão francamente demoníaco em algo como um terrorismo que lança WMDs atrás de escudos civis: ele corrompe tudo o que toca, até quem o combate, que fica sem meios lícitos de fazê-lo. É muito triste, mas eu não vejo saída.
Mais uma vez o filme "Vestígios do Dia" me vem à memória.
A idéia de uma "guerra honrada", com fair chances para adversários.
Um lorde inglês aparvalhado, acreditando que Hitler queria "a paz" - e achando que a pobre Alemanha já tinha sido muito maltratada na Primeira Guerra... Tudo dentro desta mesma ingenuidade que você demonstra, Alberto. Muito honorável. Eu entendo, mas você deveria ver o filme, palavra de honra.
Se eu tenho alguma crítica a fazer a Israel, é a ÓBVIA: os terroristas do Hamas tinham que ter sido eliminados de Gaza sem sobrar um único. Acho que agora ficou tudo muito pior, se você quer saber.
E concordo com o Pedro - que raio de tecnologia é essa, de tamanha precisão? Pois se os terroristas se instalam em toda a parte, céus! Bons tempos aqueles em que os exércitos íam para o campo de batalha, amigo, resolver LÁ as questões!
O Hamas ataca a partir de escolas, hospitais, casas, qualquer coisa! Não há como separar os alvos, evidentemente - menos ainda quando se trata de uma guerra contra terroristas, pois o FUNDAMENTO do terrorismo é o sacrifício de civis - sejam eles quem forem, estejam de que lado estiverem! TODAS as táticas terroristas PARTEM DO PRINCÍPIO de que esse sacrifício de civis é sua arma MAIS PODEROSA, caramba! Seu grande TRUNFO!
Você supõe que os terroristas estão interessados em DEFENDER os civis do seu lado, amigo? Esquece! NÃO ESTÃO, NÃO! O terror considera A PRIORI as pessoas como ARMAS, sejam de ataque ou de defesa - e esse modelo é mil vezes PIOR do que o de qualquer outra guerra.
Não sei não, Pedro.
Acho que o terrorismo é espertíssimo, e acho que acaba ganhando espaço, desse jeito. Sentando nas mesas de negociação, como se devesse "ser ouvido". Como se tivesse "um ponto de vista" a ser "levado em conta".
Acho que o tratamento certo pra eles é o de BANDIDO, e nenhum outro. Não tem negociação nenhuma, não tem que ter.
Mas enfim, tomara que você esteja certo.
O maior problema, eu creio, é que as pessoas têm uma imensa dificuldade de entender o conceito de guerra justa. E isso é uma constante dos pacifistas aos militaristas.
Uma guerra justa não implica de maneira alguma na concessão de "fair chances" ao adversário, não implica na necessidade de equilibrar forças. E, como Pedro disse, a possibilidade de vitória é uma condição essencial para a caracterização da guerra justa. Israel, cujo poderio militar assegura uma tal probabilidade em alto índice, portanto, certamente dispõe de maiores meios para guerrear justamente do que seus adversários.
É óbvio que, ao dificultar a separação de alvos, o Hamas está lançando mão de uma tática sórdida, mas uma tal sordidez é configurada justamente porque procura lançar o adversário num dilema cuja solução imediata o leva a servir-se de recursos humanamente inaceitáveis. E tanto mais sórdido é o benefício político e de propaganda logrado ao incitar a opinião pública pelo mundo afora a atribuir a culpa exclusivamente a Israel, apelando aos ardis da guerra assimétrica. Não tendo claramente chances de conseguir uma vitória militar (de maneira que já estabelece de início a ilegitimidade de sua iniciativa de combate), o Hamas aproveita-se do suporte midiático que consegue levantar em sua causa. Em tudo isso eu concordo com vocês.
Mas os ataques de Israel atingiram hospitais, escolas, sedes de entidades filantrópicas, com a plena consciência de que assim vitimaria algumas centenas de inocentes. Quaisquer que sejam as circunstâncias do conflito, tais ações jamais se poderiam justificar. E configuram, sim, um ilegítimo uso de truculência, não por carecerem as ações de importância estratégica (ou mesmo como instrumento de pacificação e estabelecimento da justiça), mas por atingirem direta e conscientemente muita gente que nada tem que ver com a disputa.
Como disse Thales, a barbárie sempre tem mais meios do que a civilização, precisamente por ser barbárie. Sem peias ou escrúpulos, a maldade do homem não reconhece nenhum outro limite além do que lhe impõe a misericórdia de Deus (como colocava o Papa João Paulo II). Isso não legitima à "civilização" o emprego de meios bárbaros para dar-lhe combate. Como eu havia falado: um fim é sempre uma estipulação. Um meio é uma realidade concreta. O seu uso, porém, não pode sequer assegurar que o objetivo ensejado será atingido. Israel amanhã poderá perecer, nem mesmo pelas mãos de seus inimigos, mas até por um desastre natural. As conseqüências de suas ações, porém, não podem ser desfeitas.
E, Pedro, a caracterização da legítima defesa é um tanto mais específica. No caso em apreço, houve clara ultrapassagem dos limites à reação (não confundir com "proporcionalidade"), de maneira dolosa e premeditada, e de modo a conscientemente atingir terceiros. Sua objeção é improcedente.
Eu não sou pacifista, nem acredito que abster-se de reagir seja uma alternativa aberta exceto se todos os meios lícitos estão vetados. E, neste último caso, conforme eu já havia dito, embora não se possa propriamente justificar a reação, a culpabilidade pode ser consideravelmente atenuada. Mas repito: ainda que as forças armadas israelenses se tenham esforçado ao máximo para conter o número de vítimas nos estritos limites da necessidade estratégica, não há nenhuma razão a priori para julgar que todos os cursos de ação "lícitos" à disposição de Israel se tenham esgotado para que esta começasse a bombardear hospitais e escolas, a menos que por um partidarismo intencionalmente míope.
Também não defendo nenhum "idealismo abstrato" que "funciona bem na teoria, mas na prática a coisa é outra". Eu sinceramente não entendo esse recurso a um anti-intelectualismo "blondeliano" como meio de refutar argumentos. Se uma coisa "vai bem na teoria, mas na prática não dá certo", a única conclusão que se pode tirar é que a teoria está errada (e em particular os católicos daqui estariam enrascados). Ou a teoria é boa, e dá conta dos fatos, ou é uma teoria ruim e deve ser rejeitada. Tertium non datur.
Quanto ao cardeal, é mais do que evidente que recorreu a uma hipérbole, e nenhuma pessoa com o mínimo de bom senso suspeitaria seriamente que ele quis se referir a uma tecnologia capaz de discriminar certos sujeitos no meio de uma multidão de modo a alvejá-los sem que o mínimo estilhaço venha a ferir as demais pessoas (nem muito menos atingir de fato um infeliz inseto). Se se referia a uma tão avançada tecnologia, o Cardeal Martino certamente aludia à possibilidade de empregar outros meios de combate que excluíssem os bombardeios a hospitais e escolas (convém lembrar também que Israel conta com um dos mais avançados serviços de Inteligência do mundo).
Ao dizer que meu post "se perdeu", está desqualificando meus argumentos sem ter consistência para fazê-lo. Considero essa colocação desrespeitosa, porque sua discordância da minha opinião não lhe dá autoridade para descartá-la.
Igualmente, sua posição não é a de um magistrado, mas sim a de alguém que põe a própria opinião sob crivo dos demais, e, por mais que você argumente, o que está fazendo é sustentar-se sobre um único pilar, da impossível moralidade de impedir quaisquer perdas civis em combate, ao invés da possível de minimizá-las.
Seu argumento não parte do fato para a avaliação, mas sim de uma consideração abstrata do que seria uma moral ideal e de seu cotejo dessa idéia apriorística sobre as ações do Estado. Ora, se é para fazer assim, então que o faça com escalas, levando em conta o que OUTROS Estados fizeram em situações análogas. Isso tornaria seu julgamento muito relativo.
Dito de outro modo, fazer a guerra é, de qualquer modo, imoral. Mas é uma escolha a que o estadista é posto pelas circunstâncias, nas quais ele tem que escolher a opção menos imoral entre as existentes.
Outra coisa: quando falei em guerra assimétrica, não me referia ao Hamas, mas à desproporção dos seus argumentos como parte da guerra cultural e ideológica que está em jogo nos dias de hoje.
Alberto, a verdade é que não há outro modo de lutar contra o terror. Palavra de honra que é o que eu acho. Eu concordo com você que a barbárie tem mais recursos - o terrorismo É a barbárie. Até aí concordamos. Você quer que se empreguem métodos diplomáticos contra a barbárie - eu digo que a barbárie vai se estender pela terra ionteira e você será eliminado - não só você, mas toda a civilização que mereça o nome.
Se o seu adversário é um terrorista - não interessa "que" terrorista, ou melhor, não interessa a serviço "do que" esse terrorista está - você está diante de uma escolha ÚNICA: ou elimina ou é eliminado. TODOS os seus recursos, os recursos não-bárbaros, não são eficazes. Não adiantam. Não servem. Você pode até escolher SER ELIMINADO, acho que é uma escolha respeitável. Mas você tem que SABER, tem que ter consciência, da escolha que está fazendo, do que ela representa, etc, etc. Não pode hesitar, não pode pensar que " é uma solução". Não é: é uma ESCOLHA. O problema vai persistir depois dela, vai persistir depois da sua eliminação.
Israel não está lutando contra os palestinos: está lutando contra o terrorismo.
Essa posição tem que ser mantida firmemente, por palavras e por ações.
Se não eliminar o terrorismo que o mantém sob ameaça o tempo inteiro - vai ser eliminado ELE MESMO. É uma questão de vida ou morte, evidentemente, e qualquer outra idéia a respeito é burrice ou fingimento.
Os terroristas sabem disso, Israel sabe disso, e eu sei disso. Todo mundo tem que saber disso. O ocidente é bom que comece a saber também, porque o alvo final é ele mesmo. Que está uma merda, todo infiltrado, etc - mas o MÍNIMO que os que defendem o terrorismo têm que saber é que SERÃO ELIMINADOS junto com a merda, a josta, a infiltração, etc. Vai tudo junto.
Podem tratar de subir num morro e botar um alvo na cabeça, pra facilitar a ação dos terroristas. Pelo menos não vão morrer como retardados mentais, o que já é alguma coisa! !
O império romano do ocidente caiu sob a barbárie, também. Podre, desmoralizado, exatamente como o ocidente está. Again. Suponho que se eu fosse uma romana, naqueles tempos, estaria dizendo exatamente a mesma coisa, e fazendo exatamente a mesma coisa - tentando a recuperação moral da minha civilização, e aconselhando o combate feroz aos bárbaros. Não foi à toa que me deram um nome romano.
A Prisca romana viu a sua civilização decadente submergir, e o terror da barbárie assolar o mundo conhecido, e os restos desta civilização serem preservados silenciosamente nos mosteiros onde habitava a fé que gosto de pensar que seria também a dela, o Cristianismo. Tanto tempo depois, a tatatatataraneta assiste, de novo, ao mesmo filme - versão piorada.
Sua colocação foi precisamente uma crítica aos meus argumentos, e eu, ao afirmar que ela "se põe a perder", quis dizer que não a julgo válida, e dei a seguir minhas razões para tal. Se elas não se lhe afiguram satisfatórias, cabe que responda com uma crítica à minha réplica. Perceba que eu não simplesmente "descartei" o que você falou como algo "que não me apraz" ou "com que eu não concordo", mas somente aleguei um non sequitur e busquei justificá-lo (talvez insuficientemente), mas não pretendi emitir anátema ou condenação e nem sequer fiz qualquer juízo de valor a seu respeito, de modo que considero sem efeito a sua alegação de que o teria desrespeitado.
Eu tenho tentado manter a questão sempre no plano dos argumentos, justamente para expor minhas colocações ao crivo dos demais e submeter as suas colocações, por sua vez, à minha crítica. Se tenho usado de argumentos fracos, confusos, sofísticos, cabe a vocês apontá-los. Creio que Pedro conseguiu entender a questão como tal, e tem de fato buscado responder meus argumentos com contra-argumentos. Isso torna o debate produtivo.
Eu sinceramente não sei o que vocês entendem por "moral", mas eu entendo que todo discurso acerca de qualquer que seja o objeto é sempre necessariamente expresso através de universais que não podem ser obtidos senão por abstração. Um juízo moral, conquanto distinto do factual no respeitante à natureza do seu objeto, é, contudo, ainda um juízo, e como tal deve passar por uma classificação em espécies e gêneros determináveis e em certa medida (ao menos conceitualmente) fixos, se se lhes pretende atribuir algum mínimo grau de inteligibilidade.
Como eu sou um realista moral e creio na existência de uma moral objetiva e cognoscível (que deveria ser de esperar de uma realidade que tem sua fonte, escopo e finalidade no ser racional), considero que a afirmação de que uma determinada ação se qualifica como "moralmente lícita" deve sempre ter como pano de fundo um raciocínio a partir de princípios (ainda que não haja demonstração apodítica da sua aplicabilidade a cada situação concreta), e estes princípios não podem ser outra coisa que não universais e "abstratos" (de vez que não são substâncias individuais).
Portanto, o juízo de que uma determinada ação é imoral deve passar sempre pela violação de certos preceitos "ideais" (a menos que se relativize a moral, por exemplo, à consecução de certas finalidades, variáveis de caso para caso; mas aí se descaracteriza a tese realista inicial).
Percebam. Quando vocês afirmam: "sua caracterização de moral não é adequada para interpretar certas situações concretas, como as de conflitos armados", em que consiste a inadequação? É inadequada em relação a quê?
Não pode ser diretamente em relação a uma realidade factual, porque um enunciado deontológico e um enunciado de fato não se contradizem mutuamente (o máximo que se poderia ter seria um enunciado normativo que se revela factualmente impraticável, como num caso como "é proibido usar o cérebro para pensar", mas a violação de uma norma não invalida ipso facto a própria norma - embora neste caso possa torná-la inócua).
Tampouco se poderia alegar que a regra não pode valer porque é "pouco prática" ou "difícil de cumprir", a menos que se assuma um sistema moral que estabeleça o valor próprio desses critérios e que deve ser tão universal e abstrato quanto a concepção de moral que está sendo criticado (ou mais universal, já que é capaz de julgar do outro "desde fora").
É claro que vocês julgam das minhas proposições em conformidade com uma visão de moral própria, que é precisamente uma certa moral conseqüencialista. Determinadas ações estão justificadas porque tendem a produzir conseqüências desejáveis. Eu critiquei uma tal posição mostrando porque eu julgo acertado afirmar que os fins nunca justificam os meios (nem mesmo quando se trata de uma questão de sobrevivência).
Vocês simplesmente reafirmam que o caso em apreço é um em que os meios são lícitos em vista do fim (a saber, a sobrevivência de Israel e a extirpação do terrorismo) das mais variadas formas. Deveriam, penso eu, fazer de duas uma: ou bem tentar me mostrar que meus juízos particulares não são conclusões legítimas das minhas premissas, ou simplesmente negar as minhas premissas, caso em que teríamos simplesmente uma discordância de princípios, e a continuidade do debate se revelaria infértil.
Eu só acrescento que em particular os católicos teriam certa dificuldade em sustentar semelhante posição (outra vez: posso estar errado, e aliás seria extremamente grato se algum dos confrades me fizer o favor de apontar-me os erros, de vez que se trata de assunto de considerável gravidade).
A propósito: eu não defendo que a guerra é de qualquer modo imoral. Em certas circunstâncias, ela é imperativa. E, como já afirmei: não são considerações sobre o risco (ou mesmo a impossibilidade prática) de fazerem-se vítimas civis que tornam o apelo à solução bélica ilícito (ou sequer menos necessário, nos casos prescritos).
O problema não está em Israel reagir. O problema não está em que as ações de Israel acabem vitimando algumas (quantas forem) pessoas inocentes, como conseqüência acidental e não planejada. O problema não está em que toda guerra inevitavelmente ceifa vidas inocentes.
O problema está em que, em determinadas ações, as forças militares israelenses possuem pleno conhecimento de que há pessoas inocentes (aliás em grande número) abrigadas em hospitais e escolas - juntamente com terroristas munidos de morteiros, OK - e ainda assim disferem seus ataques contra os referidos prédios com os conhecidos (e esperados) resultados em mortes e mutilações de civis não envolvidos.
Percebam: eu nem sequer afirmo que Israel busca ativamente essas mortes e mutilações como objetivo militar, mas ainda como meio através do qual certos objetivos militares (a saber, neutralizar terroristas armados e hostis) são atingidos, tais ações são em si condenáveis.
Meus comentários precedentes respondem algumas de suas críticas (satisfatoriamente ou não, a questão é outra). Quanto a seu primeiro comentário, há um claro mal entendido (de que eu talvez tenha culpa por falta de clareza): quando eu digo "não se possa propriamente justificar a reação", não estou me referindo a qualquer reação abstratamente considerada, mas à particular reação de Israel através dos meios referidos.
Em seu comentário sobre a legítima defesa, o caso é semelhante: é claro que o assassinato (o termo é impróprio, pois a existência de legítima defesa descaracteriza o ato como "assassinato") é um crime quando dissociado da situação de legítima defesa, e nesta cessa de o ser. Eu somente quis dizer que há mais elementos na definição de legítima defesa do que "a transformação de um ato ilícito em lícito", e que este sozinho não é condição suficiente para configurar uma situação de legítima defesa. Portanto: embora matar o agressor seja legítimo como ato de legítima defesa, matar um seu refém com dolo (embora objetivando a morte do agressor, não o é. Isso é o que eu julgo que invalida seu argumento.
Quanto à afirmação do cardeal, tampouco eu vejo essa implicação: "se dispõe de armas mais precisas, então erros são inaceitáveis". Não se trata de uma questão de erro. Trata-se de uma questão de dolo. E, em conformidade com o que diz o cardeal, também de uma questão de evitabilidade tática de determinados cursos de ação.
Eu não sou analista militar, e, portanto, não vou me meter a fazer sugestões táticas. Eu só afirmo que, exceto por uma tomada de posição dogmática e irredutível, não é lícito supor que Israel não poderia, em hipótese alguma, estar abusando de suas prerrogativas.
E não creio que isso faça de mim inimigo de Israel nem simpatizante do Hamas.
Sobre essa notícia, se for verdadeira, muito me conforta. E esperaria ver outras semelhantes negando que outros prédios tais não foram alvejados.
1. Pode ser que haja uma solução (i.e., uma solução logística, para o mesmo problema estratégico) que com efeito torne possível a Israel a efetiva defesa sem a necessidade de recorrer ao bombardeio de inocentes que se tem verificado. Se tal se dá de fato ou não, não é da minha competência asseverar.
2. A menos que você possua acesso a informação privilegiada, parece-me arbitrário alegar que o cardeal se pronuncia sem conhecimento de causa (ou de forma mal intencionada).
3. Excluída a hipótese do acesso a informação privilegiada, parece-me que não se pode afirmar categoricamente que todos os demais recursos tenham-se esgotados, e que a atitude de Israel permanece "o mais aceitável, do ponto de vista humanitário, dentre os disponíveis.
4. Ainda que seja um fato incontornável que tal alternativa de defesa fosse a única à disposição de Israel, isso não lhe excluiria a culpa, embora a amenizasse. Contudo, ter-se-ia que levar em conta a amplitude dos danos, e, levando-se em conta que houve dolo na fulminação dos civis inocentes (como meio para atingir um objetivo militar ulterior), não é lícito comparar o número de baixas ora obtido com o de baixas acidentais em outros conflitos.
5. Não tenho tentado estabelecer uma comparação de culpabilidades, mas somente constatar que há culpa da parte de Israel (e este é o item polêmico do debate), ainda que a culpa de seu oponente seja significativamente maior.
6. Todo o ponto não passa pela questão das probabilidades de baixas civis acidentais, ainda que muito elevadas, mas trata-se de um tipo de operação que não pode ser realizada sem levar à morte dos inocentes. Não é simplesmente um risco que se assume, mas uma decisão deliberada de matar civis inocentes para atingir juntamente com eles os agressores. As repetidas declarações por parte das autoridades israelenses de que os terroristas do Hamas estavam utilizando escudos humanos só reforçam o ponto.