É, Alberto, não tem como se chegar a uma conclusão assim. Você não sabe o que você quer, só sabe o que não quer!
Você há de convir que esse modelo, seja em que âmbito for, resulta em não se fazer nada - trata-se de uma posição "imobilizadora"!
Você não explica o que é que você quer, e todo mundo quer saber! Você só diz que é "alguma coisa", mas não se sabe o quê! Quando você chegar a uma conclusão, aí você avisa, por favor!
A possibilidade a que me refiro é abstrata, lógica. Há duas possibilidades num espaço abstrato, e eu procuro tirar as conseqüências de uma e de outra. É a típica estrutura de uma prova por casos. Não é um recurso retórico.
Eu defendo explicitamente apenas que o cardeal está certo em colocar que ambos os lados têm culpa na situação (pois é o que posso fazer de posse das informações de que disponho, e faço-o, repito, mostrando que a culpa se verifica dos dois lado da bifurcação lógica de possibilidades (embora de um lado com maior gravidade do que pelo outro).
Creio que posso afirmar, ademais, que o mero acompanhamento da questão através de noticiários e da imprensa em geral não permite solucionar categoricamente o problema, de modo que, excluída a hipótese do acesso privilegiado a informação, não se pode asseverar com plena segurança uma coisa ou outra, mas a questão permanece essencialmente aberta.
Deste modo, creio também ser lícito afirmar que não se pode simplesmente tomar a posição mais específica do cardeal (sobre a disponibilidade efetiva de meios alternativos de solucionar-se o problema) por infundada baseando-se na conjectura de que ele não está suficientemente bem informado.
Com efeito, além disso eu não posso ir, e por isso jamais acenei para uma solução mais precisa.
O meu propósito é somente alertar para os problemas das tomadas de posição dogmáticas e dos juízos peremptórios. Sei que não é o caso de vocês, mas inicialmente o que me preocupou foi principalmente ver os católicos daqui não hesitarem em condenar de uma vez a posição do Papa em nome de um certo compromisso moral que, do ponto de vista dessa religião, é simplesmente dúbio.
Eu sei que é a posição de Olavo de Carvalho, a quem é dedicada esta comunidade, e só por isso merece a nossa atenção. Mas como católico, me espanta vê-la tomada por católicos, e muitas vezes acriticamente, em maior crédito que a do Papa. Tudo bem que não é nenhuma declaração ex cathedra Petri dotada de infalibilidade e não demanda endosso obrigatório dos católicos. Mas ainda assim deveria ser a primeira voz a ser ouvida, e seus motivos os primeiros a serem tomados em conta.
No lugar de "só por isso merece", leia-se "só por isso já merece". Claro que não é a única razão. E eu tenho imenso respeito e admiração e mesmo uma dívida intelectual e até espiritual enorme para com Olavo de Carvalho.
Amigo, a guerra só acaba quando acabar o mal, sabe.
Enquanto o mal existir, a guerra é inevitável - a guerra contra ele.
Você pensa que eu não sou capaz de sentir pena das crianças e dos inocentes - palestinos ou outros? Meu coração se aperta quando penso na Segunda Guerra, amigo. Nem todo alemão era nazista, e muitos ajudaram como puderam! E quantas crianças alemãs inocentíssimas morreram ali!
Mas não se podia ficar parado enquanto os exércitos do Terceiro Reich avançavam, amigo - e o dr. Menghele, e todo o resto do horror nazista a cobrir a Europa inteira!
Idem para o comunismo, o monstruoso genocida!
Os "bonzinhos" largam populações entregues à sanha de assassinos, viram as costas e falam em "paz"!
Ao ponto 1 eu já respondi que se trata de possibilidade abstrata. Há uma bifurcação no espaço lógico e eu explorei aonde os dois possíveis caminhos levavam.
Portanto, as circunstâncias materiais mais específicas não precisam entrar na consideração do meu argumento. O ponto 3, portanto, não me parece relevante (para o que eu tenho tentado argumentar).
Quanto à hipérbole do cardeal, referia-me obviamente à alusão a uma tecnologia "que permite distinguir uma formiga sobre a terra". O que permanece concretamente da sua colocação é: Israel tem meios para evitar a tomada de ações semelhantes e não o faz. Repito: não tenho meios de avaliar a correção de uma tal declaração, e creio que não o tem quem não tenha acesso privilegiado a informação. Não estou com isso eliminando a possibilidade de que você esteja certo ou de que a informação de que dispõe seja mesmo confiável. Eu não estou negando uma possibilidade para privilegiar a outra. Estou somente asseverando que a questão se me afigura (de acordo com os meus parcos recursos) aberta.
À sua analogia eu pensei ter respondido com o trecho:
Todo o ponto não passa pela questão das probabilidades de baixas civis acidentais, ainda que muito elevadas, mas trata-se de um tipo de operação que não pode ser realizada sem levar à morte dos inocentes. Não é simplesmente um risco que se assume, mas uma decisão deliberada de matar civis inocentes para atingir juntamente com eles os agressores. As repetidas declarações por parte das autoridades israelenses de que os terroristas do Hamas estavam utilizando escudos humanos só reforçam o ponto.
Pois entendi que no analogatum o disparo era um risco assumido, e não uma deliberação de matar o seqüestrador "através" do refém.
Mais: eu não estou tratando de direito civil ou militar, mas da doutrina moral da guerra justa. Se há confusão terminológica, é favor apontá-la (e corrigi-la).
Quanto a essa problemática de "defesa de fato" x "defesa da honra", tem também seu interesse. Mas parti da premissa de tratar-se de defesa de fato para começar assumindo a maior legitimidade da causa de Israel.
O que eu quis fazer foi apontar o seguinte: mesmo partindo do ponto de vista o mais possível simpático a Israel, ter-se-ia que admitir há algumas de suas ações militares que merecem enfática recriminação.
Amigo, eu não pertenço à respeitabilíssima Igreja Católica Romana e a nenhuma outra instituição religiosa organizada.
Mas sei que Sua Santidade o Papa é o sacerdote máximo, aquele que tem as chaves de Pedro, o que chefia a Igreja Católica Romana. Ele tem entre os seus mais sagrados deveres de sacerdote aquele de perdoar os pecados dos pecadores arrependidos, em nome de Jesus. Este é um poder dado a ele, que tem portanto a obrigação de cumprir o dever em que este poder implica!
Seria um absurdo TOTAL que o Papa NEGASSE este perdão, dado em nome de Deus, a um pecador que se declarasse arrependido e fosse pedi-lo a ele - mesmo que este pecador fosse o pior réprobo da face da terra! Sinceramente, na minha opinião esta negação seria uma HECATOMBE tamanha que destruiria toda a Igreja Católica, Apostólica, Romana! Porque significaria que o Papa estaria se rebelando e traindo seu dever, sua missão, e tudo o que ela representa! Estaria traindo Cristo!
Seria extraordinariamente TERRÍVEL se o Papa declarasse ao pecador sinceramente arrependido "o perdão está fora do seu alcance porque eu decidi assim e pronto!"!!!!!
Obviamente uma pessoa qualquer pode fazer isso, mas ela não está intermediando o perdão de Deus, como o sacerdote está, segundo a sua própria Igreja! E se um sacerdote não pode fazer um absurdo desses, caramba, imagine-se o Papa!
Só entram nessa conta - para a obtenção do perdão - o ARREPENDIMENTO DO PECADOR E O PODER DADO AO PADRE POR CRISTO.
Ou então eu realmente não sei o que é o Catolicismo Romano, me ensinaram tudo errado ou eu entendi tudo errado!
Eu às vezes acho que está todo mundo ficando meio maluco, amigo.
Palavra de honra.
Eu não defendo a tolerância para com o mal. Creio que se deva declarar guerra contra o terrorismo internacional, e essa guerra deve ser feita com os recursos de que se dispõe, com rigor e armas.
Só que não com meios em si desleais e desonestos.
Como afirmei: a consideração das inevitáveis mortes de inocentes não afeta a legitimidade de uma guerra, exceto quando as vítimas civis inocentes são feitas deliberadamente, qualquer que seja o motivo alegado para isso.
Bom, pelo que eu entendi, por causa do fato dos terroristas estarem usando escudos humanos inocentes, todo mundo levanta as armas, desiste e vai pra casa, é isso?
Não, sério: imagine-se um exército tenebroso, cada um com um pobre refém amarrado em si como escudo, e a destroçar a terra inteira porque os bonzinhos pacifistas não acham certo fazer porra nenhuma! E a situação está bem próxima disso, amigo, acredite. A tática deles é essa!
A bandidagem das favelas cariocas, que foi treinada pelos terroristas das FARC, sabe disso há ANOS! DÉCADAS! Tá tudo emburacado nas favelas, usando os moradores, coitados, como escudos! Cada favela ocupada é uma faixa de Gaza, amigo - os bandidos são todos terroristas, treinados por terroristas, caraca!
Na verdade, Priscila, seria lícito disparar contra um tal criminoso assumindo os riscos de matar a criança, se fosse o caso realmente de ser o único meio de defender outras vítimas (e inclusive, com toda a probabilidade, até a própria criança). O que não é lícito é mirar na criança para atingir o criminoso. A distinção pode parecer sutil à primeira vista, mas é bastante clara.
Não é, aliás, em absoluto, questão de pacifismo. Não sou pacifista e considero o pacifismo uma posição moralmente insustentável.
A respeito desse bispo, vi a notícia por cima, vou procurar me inteirar melhor do fato.
Prima facere, deinde philosophare, Monsieur Jean-Mathieu Sartre? =)
De qualquer forma, fico feliz que tenhas escrito isso, agora posso insistir pra que venhas numa reunião do Rotaract! =)
Mas, falando sério, que bom que tu estás aqui. Este é aquele tópico do "dilema moral do general israelense" ao qual eu aludi. E ele é importante porque parece trazer a tona que, às vezes, pode haver uma discrepância irreconciliável entre uma visão "orgânica" do problema, que leve em conta os diversos fatores que interferem e as gradações e nuances entre a atitude mais correta e a mais errada e a visão do estrito ponto de vista da moral individual (que, repito, é a única que conta no final). Tudo somado, como eu disse antes, eu não consigo enxergar uma alternativa não relativista que não deixe os maus com a faca e o queijo na mão para levar os bons "como ovelhas para o matadouro". Isso me parece horrível, sem dúvida, mas mais hossível ainda é usar o "Anel do Inimigo". Quod erat demonstrandum.
1. Uma referência às "possibilidades abstratas" só se sustenta porque qualquer caso concreto se enquadra em uma de suas categorias. Não se trata de descurar dos elementos concretos, mas de estabelecer um resultado para qualquer curso conceitualmente possível (o que necessariamenteinclui os casos materialmente possíveis). Portanto, dizer que o argumento não vale "por ser uma abstração" é desde o princípio ignorar a natureza da abstração ao invés de lhe dar uma resposta própria.
2. Sua interpretação da fala do cardeal passa pela consideração de que ele teria querido justamente "se referir a uma tecnologia capaz de discriminar certos sujeitos no meio de uma multidão de modo a alvejá-los sem que o mínimo estilhaço venha a ferir as demais pessoas", ou pelo menos algo semelhante, como eu havia sugerido. É claro que, fosse essa a interpretação correta, o cardeal teria dito um enorme disparate. Se, por outro lado, o cardeal "aludia à possibilidade de empregar outros meios de combate que excluíssem os bombardeios a hospitais e escolas" (como eu considerei ser mais judicioso assumir), a questão sobre a sua procedência fica ao menos abstratamente em aberto (e creio que com as dificuldades de decidir-se positivamente a que eu já me havia referido).
Mais do que isso: a analogia não serve para o caso porque, ao bombardear uma escola ou um hospital como meio (único ou não) de atingir os terroristas, não se está assumindo simplesmente um elevado risco de "levar junto" vidas inocentes, mas tomando-se esse efeito por certo. De fato, fosse uma mera questão de imperícia técnica, o problema não se colocaria. Fosse uma questão de "não utilização" dessa mesma perícia, seria consideravelmente mais difícil de se julgar, e a sua posição seria, com efeito, totalmente defensável. Ou seja: por permanecer uma possibilidade aberta, seria um claro caso de juízo temerário afirmar que foi realizado de maneira mal intencionada.
3. Como eu já me havia manifestado: em nenhum momento eu quis sugerir que, para o mesmo fim estratégico, o exército israelense teria efetiva e materialmente podido se servir de meios menos desumanos. Apenas levantei a questão como "possibilidade abstrata" que "não poderia ser descartada a priori".
4. A questão não é "matar talvez um" no esforço de salvar uma centena. A questão é matar deliberada e conscientemente qualquer número arbitrário x no esforço de se atingir qualquer objetivo (incluindo salvar qualquer número arbitrário y). Perceba, inclusive, que ao matar os x inocentes, ele não está, ipso facto, salvando a vida dos y outros, mas somente estipulando que eles serão mais facilmente salvos desse modo.
É claro que a inação não é uma isenção de responsabilidades. Se ele opta por não agir, será responsável pelas conseqüências de sua inação. O único caso que justificaria a inação seria o efetivo esgotamento de todas as possibilidades moralmente admissíveis de ação. Estas, no caso em apreço, poderiam incluir, por exemplo, o reforçamento da proteção à população civil. O fato é que, haver ou não uma outra alternativa (logisticamente falando) não elimina o problema, senão que o atenua. E eu estou pronto a admitir esta última alternativa. A única coisa que eu tenho afirmado é que, excluído um engajamento pessoal, eu não vejo qualquer motivo para tomá-la por absolutamente segura.
Eu considero perfeitamente admissível, coerente, e até onde me concerne, mui provavelmente correto defender o lado israelense no conflito. O problema está em defender as particulares ações de destruir escolas e hospitais com o objetivo de neutralizar terroristas ocultos nesses prédios como (mesmo circunstancialmente) corretas. Pode-se, em caso extremo, defender que são ações compreensíveis ou até desesperadas (não vou entrar na questão da probabilidade desta última hipótese), e asseverar que, apesar disso, colocados os pesos na balança, Israel permanece "com razão". Creio ser esta, por exemplo, a posição de Thales.
Eu só tenho uma objeção quanto à sua categorização de "bons" e "maus", posto que os "bons" se definem pela forma como agem, e todos (e não penso que a tensão a que se submetem de alguma forma os imunize a isso), todos estão sujeitos à queda. Por isso devemos sempre lhes apontar os erros e condenar sumariamente? Por certo que não. Mas tampouco devemos tomar por louváveis atos que estão muito longe de sê-lo, sob a pena de que se nos embote toda possibilidade de discernimento.
Quanto à categorização em "bons" e "maus", tu estás correto, mais uma vez. Foi só um esboço esquemático que eu fiz para uso interno. Na verdade, eu tenho que comer algum feijão antes de ter condições de contribuir para este tópico. Portanto, eu só o acompanho e o cito (e, pra sublinhar pontos relativos a esses fins exteriores ao tópico em si foi que escrevi, com o perdão do tumulto). Em geral, eu lido com ele de uma maneira um tanto "poética", na categoprização dos quatro discursos, então tudo o que eu posso fazer é enunciar impressões. Com o Pedro e a Priscila, eu não consigo deixar de achar fundamentalmente errado que se negue a Israel (ou a qualquer um que enfrentasse terroristas desse nível de covardia) toda possibilidade de reação justificável. E, no entanto, eu não consigo fugir da tua análise sob o ponto de vista da estrita moral individual. Isso seria supor que alguém obedece a uma moralidade "enquanto indivíduo" (que tem o dever absoluto de não matar inocentes deliberadamente, ainda que colateralmente, e que deve preferir perecer ele mesmo a fazer isso) e a outra "enquanto general" (que tem o dever de salvar o prórpio povo no matter what). E isso é cisão da consciência.