Não posso deixar passar sem comentários a observação matemática do Laharl. Há uns quatro anos, quando o problema da substancialidade do mal me atormentava, a comparação com os números negativos foi muito eficaz para mim.
Uma contradição que me incomodava era a seguinte: se o mal, como pretende Sto. Agostinho, é uma deficiência de bem, como explicar que ele ATUE? Se para agir, é preciso ser, como algo que não é objetivamente nada pode fazer tanta merda há tanto tempo?
Talvez essa pergunta fosse para Agostinho muito fácil, mas eu quase neguei toda a sua metafísica por causa disso. Bem, eu tinha quinze anos, e quase desisti da teologia para jogar Playstation.
Mas quando pensei num número negativo, subitamente a aporia se esclareceu: é perfeitamente possível OPERAR com negativos, sem ferir NENHUMA regra matemática e sem alterar o conjunto de princípios qua a governam. Embora tomado isoladamente o número negativo não represente nenhuma quantidade presente, e só afirme uma ausência, a sua "ação" consiste justamente numa aniquilação progressiva dos números naturais. A metáfora pára aí. O mal, embora provoque a desordem e a destruição, não é capaz de alterar minimamente a ordem total das coisas, e na verdade está ENVOLVIDO por essa ordem. Ele inverte e nega o bem, mas por isso mesmo está sob as regras impostas por esse mesmo bem. Uma das teses da Filosofia Concreta, talvez uma das mais difíceis de entender, é: "Negar, de certa maneira, é afirmar".
Só uma última nota: há números binários negativos sim, mas eles são assinalados por um zero (ou um) inicial, que é convencionado como o sinal do número.
São Tomás conclui que há um "motor" inicial exatamente pela impossibilidade de algo ser "motor" e "movido" simultaneamente.
Então, eu não entendo este teu raciocínio de ato perene. Não que seja incompatível com a 1ª via, mas porque simplesmente nada é dito a respeito disto.
O primeiro movimento, do qual derivam todos os demais, poderia muito bem ser um movimento único, original, e, a partir daí, formar uma infinita reação em cadeia.
Mas não necessariamente com novas movimentações feitas pelo motor original.
Vou colocar uma idéia minha aqui, que será motivo de mais chacota ainda do que já pensam de mim (acredito eu).
Eu tentei fazer uma definição de Bem e Mal, comparando-as com as divisões estruturais da mente feitas por Freud.
Na minha opinião, o que chamamos de "mal" é nada mais do que a exacerbação do ID freudiano.
E o "bem" nada mais é do que a ação do SUPEREGO.
O "livre arbítrio" seria, portanto, o EGO.
Ocorre que, segundo a psicanálise, o ID é originário e hereditário, enquanto o SUPEREGO, construído.
Então, pelo menos nesta visão, o "mal" é que seria o padrão, enquanto o "bem" é resultante de um esforço mental para se contrapor ao "mal" latente em nós.
"Ele inverte e nega o bem, mas por isso mesmo está sob as regras impostas por esse mesmo bem."
Bem interessante este seu post.
Mas esta visão de que o mal inverte e nega o bem, mas está sob as regras deste não é questão de fixação num determinado ponto de vista?
O que o faz descartar a idéia de que não seria o bem que inverte e nega o mal, mas está, por isto mesmo, sob as regras deste?
Mas aí teríamos somente uma distinção terminológica, Laharl.
Algo continuaria a ser "positivo", e algo continuaria a ser "privativo".
Se você quiser chamar o Bem (Ser, o positivo) de Mal, e o Mal (privação, imperfeição, escalonamento do Ser) de luluzinha, a realidade ontológica continua a mesma.
"Se você quiser chamar o Bem (Ser, o positivo) de Mal, e o Mal (privação, imperfeição, escalonamento do Ser) de luluzinha, a realidade ontológica continua a mesma."
Considerar o mal como privação é decorrência de foco na perspectiva do Bem.
Na verdade, continua fazendo sentido se inverter, passando a considerar o Mal como originário e o Bem como sua privação.
Essa sua tese é psicologismo puro, Laharl.
Ela reduz todo um problema do real a meras categorias psicológicas.
E o que fundamenta a mente, por exemplo?
Nenhum "ismo" é saudável ao conhecimento humano, porque os "ismos" são recortes da realidade, não abarcam todos os outros infinitos ângulos pelo qual se pode conhecê-la.
Assim, o cientificismo também é um problema, porque só considera o que é de objeto experimental; o economicismo, que só considera o fator econômico, o sociologismo, que só considera os fatores sociais, e assim por diante.
A realidade é uma "massa", da qual cada um destes recortes representa um campo de estudo; só a FILOSOFIA é capaz de empreender uma "congregação de saberes" num corpo fundamental, por assim dizer, e por isso que ela vem antes de todas as ciências.
Laharl, SEM FAZER A MUDANÇA TERMINOLÓGICA, o Mal não pode ser "originário" de nada.
O Mal puro é o Nada absoluto. É um nada de coisa alguma; é, enfim, um não-ser.
O Mal só é considerado ontologicamente COM RELAÇÃO ao bem. Por si mesmo ele é Nada; aliás, Nada não é.
Laharl, veja o que já dizia Parmênides (um dos "avôs" da Filosofia) há 3000 anos, em seus fragmentos
. 5: now it is, all at once, a continuous one. For what kind of origin
for it. will you look for ? In what way and from what source
could it have drawn its increase ? I shall not let thee say nor
think that it came from what is not; for it can neither be
thought nor uttered that what is not is.
. [content suppressed]
Como eu já falei aqui, eu considero que a definição do Mal como uma nulidade é tão somente consequencia de que, na época destes pensadores ainda não existia o conceito de "menos do que nada".
Vou tentar colocar mais um exemplo:
O contrário de um som não será o silêncio, como pode parecer a princípio.
O contrário de um som é um som tal que, somado ao som originário, o anula.
Se este for ouvido isoladamente, será idêntico ao som original, porém invertido.
Na minha opinião, Bem e Mal seguem este princípio.
Como eu já falei aqui, eu considero que a definição do Mal como uma nulidade é tão somente consequencia de que, na época destes pensadores ainda não existia o conceito de "menos do que nada".
Laharl, conceitue o "seu" nada.
Ele é o zero da matemática ou é um NADA pleno?
Parece-me óbvio que não pode haver nada "menor do que nada", pois o nada já é a ausência TOTAL de qualquer coisa.
Os números negativos da matemática são somente inversões, só se dão EM RELAÇÃO aos números positivos. São símbolos, não realidades ontológicas de "algo menor do que o Nada".
Não por menos que os números negativos seguem sendo representados por números POSITIVOS, apenas com a adição do sinal negativo para indicar PRIVAÇÃO, DIMINUIÇÃO, REDUÇÃO.
Um "-1" EM SI, ontologicamente, metafisicamente, não é coisa alguma.
"Negar, de certa maneira, é afirmar". - uma das teses da Filosofia Concreta, como já bem disse o Pedro.
Como se dá a imperfeição das coisas, Laharl, segundo a filosofia concreta?
É o seguinte; quando você observa uma maçã sobre a mesa, você sabe que não é capaz de visualizar todos os pontos da superfície daquela maçã, e muito menos o seu interior; tal já é evidente no próprio ato de enxergá-la. Ao vê-la, você também nota limites, extremidades, cores, a sua forma, enfim, você é capaz de DISTINGÜI-LA dos seus arredores. Você olha para a maçã e sabe que ela NÃO É TUDO, que há coisas que ela "exclui" (num sentido escolástico, que ela NEGA) para ser ela mesma e justamente para lhe ser distingüível. Para aquela maçã ser aquela maçã, ela NEGA a mesa, nega o chão, nega as paredes, nega a casa, nega VOCÊ, nega o ar circundante, enfim, ela é Maçã PORQUE não é o RESTO.
Toda imperfeição do universo em relação a Deus, surge, assim, por NEGAÇÃO do ABSOLUTO, por não ser a Natureza da mesma ordem do que o próprio Deus.
Se considerarmos os vícios e as virtudes como ações no sentido do bem e do mal, para mim, o nada seria a inação total, e não o vício pleno.
O mal é praticado no momento em que o ente rebaixa-se na escala dos seres criados, no momento em que ele se torna mais imperfeito do que já é, por mais inconsciente que seja tal vontade - lembremos da afirmação socrática de que TODO ente busca um bem; o que acontece é que a IGNORÂNCIA o faz tomar um mal - uma privação, um "rebaixamento" de si mesmo - como um bem.
Laharl, vamos tomar por exemplo o veneno.
Por que o veneno é mau ? Porque ele causa a morte.
Por que a morte é má ? Porque ela é a ausência da vida, e a vida é um bem.
Começando por qualquer coisa que você considere má, e fazendo esta sequência de porquês, você sempre tem que fazer recurso de um BEM no final da sequência, para explicar porque uma coisa é má.
Enquanto que o bem não precisa ser explicado em função do mal, ele é simplesmente bom. Por exemplo, ninguém precisa conhecer a morte para saber que a vida é um bem. Em um exemplo mais mundano, eu não preciso ouvir Schoenberg primeiro para saber que a música de Mozart é linda.
Eu poderia te mostrar uma maçã, e você imediatamente saberia o que é uma não-maçã. Mas, se eu jamais te mostrasse uma maçã, eu jamais poderia te explicar o que é uma não-maçã, por mais que eu te mostrasse diversas frutas que não são maçãs.
O problema, Laharl, é que você está tomando a Lógica como a maior ciência possível da realidade; e isso está errado. Você está tentando empurrar a Metafísica para dentro da Lógica.
Já dizia Aristóteles que a Lógica é a "ciência demonstrativa"; e pára por aí o seu papel.
Ora, o que fundamenta a Lógica, meu caro?
O princípio da identidade, por exemplo, a noção que temos de que algo é igual a si mesmo (A=A), como você o explicaria pela Lógica?
Como "provar" que A é igual a A?
Poderíamos dizer que o princípio da identidade é um DOGMA?
Na afirmação mais fundamental sobre a realidade, sempre haverá uma premissa não provada logicamente, como, por exemplo, o princípio da identidade, e o princípio da não-contradição.
"Os números negativos da matemática são somente inversões, só se dão EM RELAÇÃO aos números positivos. São símbolos, não realidades ontológicas de "algo menor do que o Nada"."
Laharl, sua argumentação agora está sendo simplesmente dizer "é porque é porque é".
Entenda que o Bem aqui identifica-se com o Ser, é propriedade transcendental do Ser. Você não pode pretender que o debate gire em torno de uma opinião subjetiva sua, não?
"Você pode também fazer o contrário, definindo um bem como uma negação de um mal." - Laharl
Presta atenção no que eu falei. Não dá para definir o mal primeiro.
Eu vou me repetir porque parece que eu bati na porta, e ninguém atendeu.
No universo dos sujeitos de predicação, algumas coisas podem ser definidas sem se fazer referência ao seu oposto, enquanto outras coisas só podem ser definidas depois que você define o seu oposto. O primeiro conjunto é positivo enquanto o outro é negativo.
Por exemplo (repetido) eu lhe desafio a me definir o que é uma não-maçã sem definir antes a maçã.
Laharl, as provas de São Tomás se dão fundamentalmente assim:
a) 1 ponto de partida - a experiência
b) primeiro grau da via - fato da experiência necessariamente causado
c) segundo grau da via - numa subordinação, é preciso chegar a uma causa primeira
d) término final da via - essa causa primeira é Deus (se você quiser chamar de Ser, ou de luluzinha, não tem problema)
"Laharl, as provas de São Tomás se dão fundamentalmente assim:
a) 1 ponto de partida - a experiência
b) primeiro grau da via - fato da experiência necessariamente causado
c) segundo grau da via - numa subordinação, é preciso chegar a uma causa primeira
d) término final da via - essa causa primeira é Deus (se você quiser chamar de Ser, ou de luluzinha, não tem problema)"
Ok. Mas note que, ainda assim, o trabalho das provas foi a elaboração das premissas, e não a da conclusão.
A demonstração das vias SE DÁ pela lógica, obviamente, mas é óbvio que ela contém princípios não-demonstráveis, como, aliás, TODA demonstração lógica - o que já lhe expliquei.
E agora eu vou almoçar, fazer um BEM ao meu corpo! 😛
Claro! Pois você insiste em ver "dogmas" onde não existem. Sto Tomás parte das "realidades sensíveis" e através da causalidade tira suas conclusões. Você, ao contrário, parte de abstrações matemáticas e inversão de conceitos. Busca a lógica quando convém e quando não convém escreve coisas como "e se eu chamar de mal o bem e o bem de mal"? E quando o argumento é irrefutável você simplesmente muda de assunto, faz uma abordagem nova. Quando o Renan detona sua teoria matemática, arrisca uma teoria psicológica e volta a falar em "dogma". Assim não se chega a lugar algum mesmo.
O problema do Laharl, basicamente, é que ele não consegue apreender (no sentido mais gnoseológico possível do termo) o sentido metafísico da discussão.
Ele restringe a sua mente às discussões terminológicas e psicológicas - como é costume da mentalidade moderna.
É um problema de espírito abstrativo em excesso - "atualiza" ciências particulares do real, como a Lógica, a Matemática e a Psicologia, e "virtualiza" todos os aspectos fundamentais do real, sem notar que a discussão daquelas próprias ciências passa por estes mesmos aspectos.
É uma "pneumopatologia" moderna, diria Voegelin, talvez.
"Enquanto que o bem não precisa ser explicado em função do mal, ele é simplesmente bom. Por exemplo, ninguém precisa conhecer a morte para saber que a vida é um bem. Em um exemplo mais mundano, eu não preciso ouvir Schoenberg primeiro para saber que a música de Mozart é linda."
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eu achei que a gente só aprendia por oposições e contrastes 😮
Se você pegar as profecias envolvendo o Messias, verá que não há indicação de que ele seria um "Deus", mas algo como um enviado, como o foram Moisés e Elias.