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Iniciado por leoalmacarioca em 16/12/2008 · 221 mensagens · página 4 de 5

miguel_3#151
Alberto,

Depende do que vc entender por relativismo. Existem muitas formas de relativismo, e nem todas elas negam a existência da verdade.

Somente uma visão muito simplista da realidade e da filosofia faz esta divisão tosca entre absolutismo moral e relativismo moral. Quem não entende o mínimo de filosofia se prende a este tipo de lógica míope. Quer dizer então que quem não se enquadra no seu absolutimo moral inevitávelmente é um absolutista relativista?

Estes clichês filosóficos não levam a nada a não ser a abstrações teóricas.

Fica claro no que vc diz que vc não consegue, do mesmo modo que o Geovani, distinguir diferentes espécies de homens com suas respectivas morais. Todos são iguais para vc, então nada mais apropriado que uma moral que enquadre de forma absoluta a todos, não?. Não é a toa que este tipo de moral cristã decadente serviu de base para o socialismo. Alberto, quem sabe no fundo vc não é um cristão ressentido que odeia a moral aristocrática?
miguel_3#152
"Mas claramente o seu "critério" é totalmente outro: é dado pela "consciência" (e não há um parâmetro externo, trascendente, sobre o qual esta se paute "

Quem disse que não há este parâmetro transcendente? A consciência por acaso é algo puramente individual?
fernando_8#153
Ser, conceitualmente, contra a pena de morte é ser injusto; um assassino nunca teria pena igual ao crime que cometeu. O aborto tem origem completamente diferente da pena de morte. Mesmo eu sendo a favor da pena de morte, acho difícil demais aplica-la. Quanto ao aborto sou totalmente contra. Existe uma pesquisa (UNIFESP) com as mães provenientes de estupro e 50% delas não fazem o aborto; 50% das que fazem se arrependem depois. Eu achei exagerado o dado. Não achei a pesquisa de novo, para mostrar; lógico, publicar isso desmentiria qualquer justificativa do aborto.
albertoleopoldo#154
Não, Miguel.

Eu disse que você poderia ser coerente (ainda que sendo repulsivo) defendendo um "compartimentamento" ou mesmo uma certa relatividade da moral (de acordo, por exemplo, com supostos "méritos de nascimento").

O que não é coerente é defender ao mesmo tempo que um determinado ato é lícito ou ilícito (como você parece fazer: defendendo o aborto como lícito em caso de estupro e não em outros) e colocar em última instância o parâmetro da moralidade na consciência do indivíduo.

Ademais, o "parâmetro transcendente" que você talvez julgue existir se dá na atividade da consciência enquanto tal, i.e., está na própria natureza da consciência, de modo a que ela possa obedecer tão-somente seus próprios ditames, sem preocupar-se em se submeter a alguma coisa fora dela.

Ademais esse seu juízo de que a moral cristã é "decadente" é uma opinião sua. É óbvio que o socialismo se inspira em uma doutrina de matriz cristã (cortada do contato com sua fonte, hipertrofiada e levada às mais cínicas conseqüências) e - repito - nisso reside o seu apelo. Mas a oposição ao socialismo, por si, não define as virtudes de uma moral, mesmo porque há outros erros a ser combatidos (como o individualismo liberal ou a moral de castas).
albertoleopoldo#155
Sobre o suposto "ressentimento" cristão (como defendido por Nietzsche, que é sem dúvida sua inspiração), ver o magistral trabalho de Max Scheler sobre o tema.
miguel_3#156
Alberto,

Depende de que idéia de "indivíduo" vc tem. Se vc parte de um indivíduo abstrato e isolado, subjetivo, sim. Mas obviamente esta noção de indivíduo é por demais abstrata. Não somos seres isolados, há sempre uma parcela de transcendência coexistindo com nossa individualidade. E quanto mais há esta interação entre individual e transcendente maior se torna legítima a moral. Portanto, não se trata aqui simplesmente de "escolhas morais", no sentido relativista que vc quer dar, mas de uma moral que se funde na autenticidade do indivíduo, e na sua relação com o transcendente.

Tua noção equivocada de consciência, como algo isolada e que "só se submete aos seus próprios ditames" seria um obstáculo à própria ação do transcendente na consciência.

Portanto não há nenhuma incoerência no que eu disse, já que a consciência como parâmetro último não nega a possibilidade de uma ação transcendente no indivíduo.

Quanto à moral cristã decadente sua, não é uma simples opinião, é apenas uma constatação que fica evidente na sua repulsa à moral aristocrática.
albertoleopoldo#157
Vamos tentar ser claros: você afirma que não há uma moral objetiva, fundada sobre bases firmes, insubstituíveis, e coloca o parâmetro último da moral na consciência. Isso significa que esta não remete a uma moral externa, transcendente a ela, quando se decide pelo bem ou pelo mal. Portanto, ainda que a consciência se considere "transcendente" ao indivíduo, a moral é imanente à consciência, e portanto relativa a esta. Se há uma concordância entre as consciências (ao menos aquelas que compartem o mesmo estágio de "evolução espiritual"), isso não altera o fato de que a consciência, seja qual for a sua origem ou natureza, é autônoma na sua apreciação de valores. Além do mais, freqüentemente por se considerar membro de um estrato moral superior, o indivíduo pode ser levado a cometer os crimes mais brutais, a exemplo do Raskolnikov de Dostoievsky. E nada haverá a retê-lo, moralmente, senão a sua própria consciência.

Quanto à "evidência" de decadência da moral cristã ante a "moral aristocrática", pode-se perfeitamente inverter os termos, e encontrar inúmeros sinais de decadência na assunção da existência de tais estratos morais que separam inapelavelmente os indivíduos. Che Guevara, por exemplo, explicitamente declarava o revolucionário como membro do "primeiro escalão da espécie humana", e portanto livre dos ditames da moral burguesa e legitimado em seu empenho assassino na libertação da humanidade de seus grilhões. Todo o pensamento revolucionário está entremeado disso que você chama "moral aristocrática", embora certamente rejeitaria o termo por suas reminiscências políticas.
priscila#158
Em que pese eu achar o debate cabível, e que louve o nível dos debatedores, faço questão de dizer que concordo integralmente com o Alberto.
miguel_3#159
Alberto,

Errado, não há nada de aristocrático em Guevara, não há nada de legítimo em sua pretensa superioridade em relação à moral burguesa. Esse tipo de analogia que vc faz é totalmente furada, e demonstra novamente seu espítito de ressentido em relação à moral aristocrática. Pensamento revolucionário nenhum está "entremeado"de moral aristocrática. Em outro extremo deste tipo de distorção que vc faz eu diria que tudo que já nasceu de bom em termos de civilização nasceu de uma moral aristocrática.

Não há esta total autonomia da consciência em relação à apreciação dos valores de que vc fala. E crimes brutais ocorrem idependentemente do indivíduo seguir sua "própria" consciência ou uma moral "de fora".

Mais uma vez, o indivíduo e sua consciência não é algo isolado e independente de algo que o transcenda, não existe esta separação que vc faz. A consciência já é fruto da relação do "eu" com o que o transcende, não há escapatória. Ou ele se abre à espiritualidade e daí nasce uma moral autêntica ou se fecha à ela e nega esta moralidade. É a conciência que dará a medida desta relação.
albertoleopoldo#160
Não é moral aristocrática para você, porque você parte de toda uma construção metafísica prévia, de tal maneira que aquele que não a apreende está em erro. Mas é uma moral da mesma natureza, baseada na divisão da humanidade em estratos e com deveres e prerrogativas distribuídos em conformidade com o estrato a que o indivíduo pertence (sendo que aqui a base metafísica é outra, e o seu proponente pode julgá-la tão defensável quanto você julga a sua própria).

Uma "moral aristocrática" pode servir para revestir ações repugnantes de um verniz de nobreza tanto quanto no caso do revolucionário (apenas se inverte a relação senhor-escravo).

Sua confusão intelectual é patente. Se a sua axiologia é relativa à condição de nascimento e é tal que associa valor superior ao que pertence ao estrato "aristocrático", afirmar que o que há de "bom" na civilização (claro, em conformidade com a sua moral particular) é o que tem origem na "moral aristocrática" é pouco mais que uma tautologia.

O pior é quando você fala de "crimes brutais", que só o são quando julgados efetivamente a partir de uma certa perspectiva moral. Para ser coerente, você deveria dizer: "o que é um crime brutal depende da perspectiva em que se situe o juízo". Mas a sua própria enunciação trai o reconhecimento de uma moral natural que define certos atos como "brutalmente criminosos". Pode o indivíduo perfeitamente se julgar investido da autoridade ou mesmo da missão de realizar tais atos em conformidade com seus valores recebidos ou assumidos, e ainda assim ser julgado "de fora" como um criminoso torpe.

Mais uma vez, repito: ainda que a própria natureza da consciência se julgue "transcendente", o seu critério é imanentista em relação à consciência, que é o árbitro definitivo da moralidade. A efetiva diferença entre tal perspectiva e a do delinqüente referido é que este não dispõe de uma base metafísica (que lhe fale do valor transcendente das suas escolhas "conformes à consciência") para justificá-la.
albertoleopoldo#161
Em suma: você se serve de uma metafísica rasteira para sustentar um relativismo moral repugnante, imanentista e em larga medida fatalista (dado que almas grosseiras tenderão a cometer ações hediondas, ao passo em que almas nobres tenderão naturalmente ao que lhes é condigno, ainda quando esmagam certos homens sob os pés), ante a qual supõe que devamos nos curvar por ser assim compostos a trama do cosmos e o destino dos espíritos.
albertoleopoldo#162
E, aliás, suas únicas justificativas são: assim é; sendo assim, assim é melhor; opor-se a isso é mau e decadente...
miguel_3#163
Moral aristocrática não é relacionada especificamente a uma classe social, assim como a moral burguesa, muito bem explicada em Scheller, que vc citou, mas que pelo jeito não entendeu nada, senão não faria tanta confusão.

Tua concepção de moral não passa de regrinhas que devem ser seguidas por serem professadas por determinada autoridade (seja ela transcendente ou não), é por isso que vc não consegue ver a moral como um atributo essencial do indivíduo, relacionado ao seu estado de consciência. É a tua própria moral de rebanho falando dentro de vc: "Tu deves..." Em oposição à moral aristocrática, livre por excelência.

Vc continua a bater na mesma tecla do relativismo moral, da consciência como algo subjetivo, e clichês sentimentais do tipo "repugnante", e agora vem com essa de fatalismo e metafísica rasteira. Existe metafísica rasteira? Ou é metafísica ou não é. Vc está fantasiando demais, meu caro. Onde eu falei de uma moral aristocrática que esmaga homens a seus pés? Vc está delirando? Ademais não existe fatalismo algum no que venho dizendo.

"O pior é quando você fala de "crimes brutais", que só o são quando julgados efetivamente a partir de uma certa perspectiva moral. Para ser coerente, você deveria dizer: "o que é um crime brutal depende da perspectiva em que se situe o juízo". "

E ainda vem me exigir coerência? Como se eu devesse endossar esse relativismo rasteiro que vc me imputa só para te fazer feliz.
albertoleopoldo#164
Em primeiro lugar, não falei em "classe social", mas em "estratos da humanidade", seja qual for a regra segundo a qual se a divida. Falo de moral "compartimentada", que pode não ser a mesma para o defensor da moral aristocrática ou para o socialista, mas que tem em comum esse aspecto da divisão.

E você nem perguntou acerca da concepção de moral que eu sustento (dei algumas indicações básicas, mas nenhuma declaração categórica). Em todo o caso, equivoca-se terrivelmente em pensar, provavelmente por me atribuir a "decadente moral cristã", que se trata de uma moral de "regrinhas", ou mesmo uma moral "de rebanho". O conceito de "lei natural" a que me refiro, ratificada e aperfeiçoada pela visão cristã, não é um conjunto de preceitos deontológicos.

Quanto à sua alegação de que seria uma "moral de rebanho", eu recomendo que você se dê o trabalho de estudar com alguma atenção o trabalho de René Girard.

E é claro que existe metafísica rasteira. Todo sistema de pensamento se fundamenta em uma base metafísica (consciente ou inconsciente): é um dado óbvio que há dessas bases mais sólidas ou mais frágeis.

Eu não insisti em nenhum momento da identificação entre consciência e subjetividade, mas somente na fraqueza (principalmente epistemológica) da concepção transcendente de consciência aliada à posição dessa mesma consciência como supremo árbitro do juízo moral. É claro que a questão é mais profunda, requer argumentação mais detalhada. O problema é simplesmente que você assume uma tal concepção de moral que nada tem de evidente em si mesma, com base em uma concepção metafísica que tampouco é evidente, e quer vendê-la como peixe bom e fresco sob a mera alegação de que ela seria mais "nobre" e menos "decadente".

E você falou, sim, de uma moral aristocrática que torna certas instâncias de homicídio (e.g. aborto em caso de estupro) justificáveis - com base numa tal distinção moral de "castas".
miguel_3#165
Para vc todos são iguais, portanto, devem se submeter à uma moral universal igualitária, sem distinção de qualquer espécie. De preferência uma moral que nivele a todos por baixo, uma moral de escravos, em suma. Que odeie qualquer distinção aristocrática ou de nobreza espiritual. Algo bem cristão, de um cristinianismo bem decadente, aquele mesmo que inspira a ralé socialista, ralé que sempre odiou e acabou por destruir a aristocracia, por "se acharem superiores", um crime "hediondo", segundo a moral universal igualitária.

Mas voltando ao fatalismo. Fatalismo é a a sua moral que encerra a todos dentro de uma mesma jaula e quer obrigar a todos a seguir uma mesma "moral universal" que, de universal não tem nada e só existe na sua abstração e fantasia mental, senão, onde está esta moral universal? E já que segundo vc não está na consciência, está onde? Vc por acaso consegue sair de sua própria consciência para fora dela mesma? Mesmo que vc reconheça que sim, ainda é a sua consciência englobando algo que a transcende.

Tua "moral universal igualitária" não passa em vc de uma mania de grandeza, de um exercício de totalitarismo moral, sem legitimidade alguma, pois não é nada mais do que fantasia abstrata. Enquanto que uma moral aristocrática preserva e valoriza o que há de essencial no indivíduo, sua consciência, esta sua pretensa "moral universal " o aniquila, simplesmente. Aqui está o verdadeiro crime brutal.
albertoleopoldo#166
E, aliás, grandes merdas que a "moral aristocrática" é "livre por excelência". Você só poderia julgar o valor comparativo entre duas concepções morais (reconhecendo, por exemplo, a "mais livre" como melhor) se você já parte de uma determinada concepção moral. Basicamente você está dizendo que a moral aristocrática é melhor porque, do ponto de vista da mesma moral aristocrática, ela assim o é.

E, aliás, parece ser tudo o que você sabe fazer a esse respeito.
albertoleopoldo#167
Em nenhum momento eu afirmei que "todos são iguais". Isso é um absoluto non sequitur. Afirmo que a condição de nascimento não altera a imputabilidade moral (embora, por exemplo, a maior ou menor capacidade de discernimento o faça). A universalidade da moral não implica de modo algum num "igualitarismo", mas constitui por si só um fundamento de desigualdade (baseada no mérito - sendo que esse mérito é do indivíduo concreto, em sua vida presente e única). Esse fundamento é absoluto e independente do juízo particular que os homens façam de si mesmos ou uns dos outros, e não se confunde com a justificação em sentido soteriológico.

A tua moral também lhe permite julgar universalmente, sendo que o julgamento está a priori limitado pelas condições de nascimento e não pelo exercício (e capacidades para o exercício) da vida moral.
albertoleopoldo#168
Além disso, a moral natural é fundada em cognoscíveis como a virtude e o bem honesto, que são dados objetivos no universo dos valores (conquanto os valores só o sejam por relação com a consciência - mas há aí uma fundamental intencionalidade como fundamento do valor objetivo).
albertoleopoldo#169
Ah, ia esquecendo.

Feliz ano novo!
miguel_3#170
Alberto,

"E é claro que existe metafísica rasteira. Todo sistema de pensamento se fundamenta em uma base metafísica (consciente ou inconsciente): é um dado óbvio que há dessas bases mais sólidas ou mais frágeis."

Não existe metafísica rasteira, vc confunde metafísica com teoria acerca dela. Um erro básico, mas compreensível para alguém que se prende tanto à teorias abstratas. Além do mais não expus aqui os fundamentos de minha metafísica, portanto tua acusação de rasteira é totalmente equivocada. Sua concepção de uma moral "universal" é abstrata e leva sim a um totalitarismo moral.

"grandes merdas que a "moral aristocrática" é "livre por excelência"

Grandes merdas não, pois liberdade é algo de essencial ao ser humano, coisa que a tua "moral universal" despreza, assim como a consciência individual.

"a moral natural é fundada em cognoscíveis como a virtude e o bem honesto, que são dados objetivos no universo dos valores"

Isso é óbvio, aliás, toda moral é fundade em cognoscíveis, a diferença é como valorizamos estes cognoscíveis. Na moral aristocrática estes mesmos cognoscíveis são valorizados de um modo diferente da moral escrava.

"nenhum momento eu afirmei que "todos são iguais". "

Claro que não, mas são todos iguais perante sua concepção de moral, é aqui que vc iguala todos, sem distinção. Vc continua a não perceber a diferença entre os homens e quer enquadrá-los todos à uma mesma concepção moral. Nesta pretensão de universalidade ela é autoritária.

"E você falou, sim, de uma moral aristocrática que torna certas instâncias de homicídio (e.g. aborto em caso de estupro) justificáveis - com base numa tal distinção moral de "castas". "

Compreendo tua total incompreensão de uma moral aristocrática, insistindo em limitá-la à uma condição de nascimento. Isto é devido à sua mania de colocar a moral como algo de exterior ao indivíduo, não percebendo o quanto uma moral está intrinsicamente ligada à essência do indivíduo.
miguel_3#171
Além do mais não procurei justificar o aborto com uma moral aristocrática. A justificação que fiz não é essencialmente moral, basta reler meus posts para perceber.

No mais, feliz ano novo a todos.
albertoleopoldo#172
Miguel, você é uma pessoa terrivelmente confusa.

Se você tivesse o mínimo de treinamento filosófico, saberia que Metafísica é uma ciência acerca da estrutura e fundamento últimos da realidade, e não estes mesmos fundamento e estrutura, tomados em termos objetivos. Há, portanto, diferentes teorias metafísicas, há uma metafísica platônica, uma metafísica aristotélica, uma metafísica cartesiana, uma metafísica kantiana etc., que não coincidem senão na assunção de um mesmo objeto de estudo (aliás, vagamente definido). É nesse sentido que se fala, por exemplo, nas bases metafísicas de uma doutrina, que podem estar bem ou mal assentadas (de outro modo, se nos referíssemos à realidade objetiva que cada uma delas se propõe alcançar, a própria especificação seria vazia).

Em todo o caso, uma tal confusão terminológica é de poucas conseqüências: se você resolver chamar a realidade última das coisas de "metafísica" (contrariando um uso filosófico milenar), é evidente que a minha crítica é a respeito do seu discurso ou das suas teorias acerca dela, posto que a realidade em si não é rasa nem profunda, mas simplesmente é. Se você toma a minha crítica à sua concepção de realidade como uma má compreensão da realidade mesma, você está simplesmente supondo a pertinência da sua posição sem se dar o mínimo trabalho de defendê-la.
albertoleopoldo#173
Sem levar em conta o fato de que a moral cristã não somente não despreza a liberdade e a consciência individuais como efetivamente fundou esses conceitos (juntamente com a própria noção de pessoa - originalmente forjado para tratar do dogma trinitário), há uma circularidade no seu raciocínio que, por mais que eu ressalte, você se nega a enxergar. Sua própria terminologia, chamando a sua perspectiva "moral aristocrática" e uma que se lhe opõe "moral escrava", pressupõe já um juízo de valor, por assim dizer "meta-moral" (uma vez que trata de qualificar doutrinas ou posturas morais), que nada mais faz do que endossar a priori a sua posição. Eu não tenho criticado a sua posição em termos valorativos (assim somente ressalto a incompatibilidade entre a sua moral e a minha), mas em termos conceituais, lógicos, que realmente requerem um alto grau de abstração, mas que por serem "neutros" em relação às diferentes concepções morais, podem julgá-las "de cima" (embora, evidentemente, não dêem conta de todo o problema).
albertoleopoldo#174
Além do mais, você se contradiz: como a liberdade é essencial ao ser humano se não há, segundo você, sequer uma única essência humana? Talvez se você acrescentasse "ao ser humano aristocrata" a coisa ficaria mais coerente. Além disso, o fato de algo ser "essencial ao ser humano" não necessariamente o qualifica como algo a ser exaltado pela moral. Para Platão, por exemplo, a natureza humana é essencialmente decaída, e nem por isso a decadência é um valor a ser exaltado. Ou, para ficarmos num exemplo mais prosaico, da animalidade como dado essencial da natureza humana não segue que a moral deva ser pautada por essa mesma animalidade. Você poderia até dizer que a liberdade é a distinção específica que define o homem como tal, de modo que a moral deva elevar o homem à perfeição da sua natureza (como acontece na moral aristotélica e, aliás, na tomista), mas isso não lhe é dado de bandeja, mas deveria ser tema de argumentação (eu, por exemplo, sustento que uma moral da virtude não pode consistentemente ser fundada exclusivamente sobre a liberdade - você teria que convencer do contrário).

De nada disso segue que eu não considere a liberdade como parte essencial da natureza humana e como elemento incontornável da moral. Estou contestando a sua defesa do princípio.

"Isso é óbvio, aliás, toda moral é fundade em cognoscíveis".

Falso. Vide o caso do fideísmo. Quanto ao "modo de valorização", se for simplesmente uma questão de preferência, ficamos por aí. Se você acha que pode aduzir argumentos extra-morais (sem mistura de juízos valorativos) para sustentar a sua posição, por que ainda não o fez?
albertoleopoldo#175
"Claro que não, mas são todos iguais perante sua concepção de moral, é aqui que vc iguala todos, sem distinção. Vc continua a não perceber a diferença entre os homens e quer enquadrá-los todos à uma mesma concepção moral. Nesta pretensão de universalidade ela é autoritária."

Não, não são todos iguais segundo a minha concepção de moral: nem as exigências da moral são as mesmas para todas (sendo relativas às capacidades de cada um) nem todos são reputados "iguais" com base em considerações morais (os lugares do homem perverso e do homem justo não se confundem - embora nenhum homem seja intrinsecamente perverso ou justo, espaço este deixado em aberto pela própria presença essencial da liberdade). Apenas a moral é que é universal, e por isso igual para todos. A distinção é bem pronunciada, mas acho que você não conseguiu captar. E, aliás, se uma tal concepção é "autoritária" ou não (se é que tal ponto pode ser estabelecido - e é algo que eu contesto), não há a menor relevância para a discussão a menos que se parta de uma certa concepção moral que tome o "autoritário" como ponto negativo.

Mais: para o Socialismo, não há nada como uma tal "universalidade da moral" (exceto como prospecto, como projetado para o futuro - o que parece ser igualmente um corolário da tese da permanente evolução de todas as almas no espiritismo). Antes há uma moral de classes, compartimentada. Tampouco o Cristianismo jamais inferiu (e nem poderia) da universalidade da moral a uniformização social. Houve homens santos e perversos, indistintamente entre reis e entre escravos, sem que houvesse a instigação do ressentimento entre classes ou a rejeição dos privilégios nobiliárquicos. Por mais "espiritualizada" que se pretenda a sua posição, ela estranhamente se prende à circunstância dos confins materiais, pagando com privilégios mundanos. O mesmo não ocorre no Cristianismo.
albertoleopoldo#176
É evidente que os homens são diferentes entre si, quer em constituição, quer em inclinações, quer em méritos, quer em cultivo espiritual, quer em suas condições mais amplas de existência. Disso não se segue, em absoluto, que a moral seja distinta para homens distintos (procure conhecer o chamado "is-ought problem" de Hume e a chamada "falácia naturalista" de Moore, e perceber que a inferência de como as coisas devem ser a partir de como efetivamente são, se em absoluto possível, é extremamente problemática).

Depois, como eu falei: o seu juízo não é menos universal, mas somente compartimentado e apriorístico. O juízo moral "acompanha a essência do homem", possui em sua consciência a única justificativa e nasce junto com ele (de modos diversos conforme aos seus diversos estágios evolutivos).

Afora isso, sua única crítica à moral cristã é de que seria uma moral "de rebanho", "de escravos", "decadente" e "que deu origem ao socialismo". Destes, o único ponto que não envolve propriamente juízo de valor é o último, mas é justo o mais certeiramente falacioso. Pois se lhe deu origem foi por corrupção, e não por inferência. Os demais, enquanto pretendem ter algum valor objetivo, são igualmente falsos.
albertoleopoldo#177
Quando à sua alegação "A justificação que fiz não é essencialmente moral", além de ser um remendo descabido, é absurda em si mesma. Toda justificação de uma ação ou é moral ou não é absolutamente justificação nenhuma. Uma justificativa, por exemplo, técnica, só serve como justificativa para uma ação se a técnica que a fundamenta está previamente justificada. Mas a coisa pra você é pior. Você mesmo afirmou: "trata-se de legítima defesa". Evidentemente, não estava recorrendo ao conceito jurídico. É claro que se pretendia uma justificativa moral. Se não se coaduna com a sua "moral aristocrática", isso só mostra a criatura bicéfala e incoerente que você é.

Mas eu vou rezar para que você encontre Jesus. Quiçá até através da Filosofia (séria). Basta se desintoxicar um pouco de Nietzsche e Alan Kardec.
albertoleopoldo#178
O mais engraçado em você, Miguel, é a sua postura de "portador da verdade". Você me diz que eu "não compreendo a moral tal como ela é" (p. ex. "intrinsecamente ligada à essência do indivíduo") como se você a apreendesse objetivamente, e fosse esta a coisa mais límpida e incontroversa (embora, em outros trechos, você afirme nem sequer haver um fundamento objetivo da verdade).

Vou parafrasear o que Olavo certa vez disse a Constantino: em algum momento você chegou a cogitar a possibilidade de estar errado?

Aliás: mesmo que você estivesse certo, e a sua posição com efeito se aproximasse mais da realidade, o fato de estar com a verdade não o tornaria por isso mesmo mais apto a defendê-la. Não basta dizer "as coisas são assim" porque pretensamente você sabe que elas são assim, mas, se há quem discorde de você, buscar convencê-lo com base em argumentos que lhe sejam aceitáveis.

Em nenhum momento você se dispôs a esta tarefa. Só o que fez foi me dizer que a minha concepção de moral está errada porque, ora bolas, ela não coincide com a sua (não reconhece o vínculo da moral com a essência do indivíduo, não reconhece a existência de uma moral de senhores ao lado de uma de escravos etc.).
albertoleopoldo#179
ops...

por "fundamento objetivo da verdade", leia-se "fundamento objetivo da moral".
albertoleopoldo#180
Desculpe, Dalva, não creio ter entendido bem.

É óbvio que do fato de o Estado permitir o aborto não se segue que o mesmo venha a ser moralmente lícito.

Por outro lado, também não é estritamente necessário que tudo o que seja moralmente ilícito deva ser proibido (embora permaneça sempre como possibilidade coerente com o bom ordenamento do Estado em relação à lei natural - posto que, não produzindo valor social, não há razão para receber proteção jurídica). O caso do aborto é um flagelo social e afeta o mais elementar dos direitos a serem preservados, que é o direito do inocente à vida. Além do mais, a proteção a um tal direito não é condicionada, sendo, pelo contrário, condição elementar da vida civilizada. A permissão ao aborto (especialmente dado que não somente se configura como homicídio, mas se qualifica pela premeditação, pela absoluta incapacidade de defesa da vítima, pelo caráter ao menos possivelmente doloroso e cruel e pela condição particular de filicídio - sendo a mãe a primeira e maior responsável pela tutela da criança) é, portanto, gravemente imoral e inteiramente insustentável. Todos os pretensos "direitos" alegados pelos defensores do aborto são na verdade pseudo-direitos e não requerem proteção jurídica alguma.

Não há essa de "livre-arbítrio". O livre-arbítrio, aliás, não é suspenso (nem poderia - a menos que num caso como o da Laranja Mecânica). A pessoa é livre para praticar ou não o aborto (como o assalto e o latrocínio), mas por isso mesmo deve arcar com as suas conseqüências e cumprir com a pena devidamente designada. Tal é a contraparte necessária da liberdade.
albertoleopoldo#181
Se a moral não rege as leis, então as leis são objetivamente injustas, e por isso mesmo podem e devem ser questionadas. Mais: a religião constitui a própria alma de uma nação. Fechar ouvidos a ela no que respeita à ordenação jurídica é outra injustiça patente. Já falei antes aqui: o próprio Estado laico é uma aberração. Supõe, aliás, que a religião é uma questão de mera escolha subjetiva, nega-lhe a priori qualquer valor objetivo. Para o homem religioso, a própria organização social é uma concessão divina, e o homem - e, por extensão, a sociedade - tem deveres para com Deus prioritários mesmo a seus deveres em relação a seus concidadãos. Uma sociedade religiosa que relega a religião é uma anomalia.

Mas, claro, a questão não precisa ser debatida desde o ponto de vista religioso. Mesmo porque, para o Cristianismo, o domínio da ordem moral é a vida terrena, e o seu critério é conhecido por meios naturais (a ordem moral e a ordem espiritual não se confundem, embora se influenciem). Bom, já escrevi sobre isso aqui.

O fato é que se pode combater, sim, o aborto levando em consideração somente aspectos da moral cognoscíveis através das faculdades naturais do homem (sem apelo à Revelação), mas sempre se trata de moral. Uma suposta autonomia da esfera legal em relação à moral não é só incoerente: é uma situação de injustiça que clama aos céus por vingança.
albertoleopoldo#182
Que problema?

É claro que a pílula do dia seguinte é abortiva (e justamente nisso reside a sua "eficácia").

O pessoal tenta se esquivar disso por meio de definições técnicas. Por exemplo, o aborto só se configuraria após a implantação do embrião na parede do útero. Mas claro que isso é desviar a questão. Dado tempo e nutrição ao embrião, ele se desenvolverá.

O uso da pílula seguinte configura homicídio doloso qualificado. Ou no mínimo tentativa de homicídio (quando não há fecundação).
albertoleopoldo#183
Cara Dalva,

Sinceramente, não sei o que essas pessoas querem dizer. Com efeito, "moral" provém do termo latino (mores) com o qual se traduzia o grego "ética" (ethike), tendo este a conotação mais própria de "modos" e aquele de "costumes". Originalmente, ambos abrangiam áreas da realidade (humana) mais amplas do que aquelas que dizem respeito às normas de conduta, aos valores, ao certo e ao errado - tratando em geral dos modos de proceder dos homens. Mais recentemente, vinculou-se o termo "moral" à ordem dos valores e "ética" aos procedimentos.

Nada disso está na Bíblia. A Bíblia não é e nem deve se tomar como a única fonte dos conhecimentos humanos, tratando somente daquilo que (para os cristãos) é necessário à salvação das almas (e ao menos para os católicos sequer nisso é exaustiva - devendo, aliás ser lida pelo Magistério da Igreja por meio da Tradição apostólica).

Quanto ao declínio do interesse no direito natural, reflete a situação de decadência do nosso meio jurídico. É simplesmente lamentável.
miguel_3#184
"Miguel, você é uma pessoa terrivelmente confusa.
Se você tivesse o mínimo de treinamento filosófico, saberia que Metafísica é uma ciência acerca da estrutura e fundamento últimos da realidade, e não estes mesmos fundamento e estrutura, tomados em termos objetivos."

Não, confusão é vc que faz ao confundir metafísica com ciência. Metafísica não é ciência, qualquer pessoa que tenha entendido um pouco de filosofia sabe disso.

“Há, portanto, diferentes teorias metafísicas, há uma metafísica platônica, uma metafísica aristotélica, uma metafísica cartesiana, uma metafísica kantiana etc.,”

Errou de novo, meu caro, há apenas uma metafísica interpretada por estes filósofos. Tente entender, metafísica não é teoria.

“Sua própria terminologia, chamando a sua perspectiva "moral aristocrática" e uma que se lhe opõe "moral escrava", pressupõe já um juízo de valor, por assim dizer "meta-moral" (uma vez que trata de qualificar doutrinas ou posturas morais), que nada mais faz do que endossar a priori a sua posição”

Sim, é um juízo de valor, e é claro que eu endosso minha posição. E daí? O que vc diz são apenas obviedades.
miguel_3#185
“Eu não tenho criticado a sua posição em termos valorativos (assim somente ressalto a incompatibilidade entre a sua moral e a minha), mas em termos conceituais, lógicos, que realmente requerem um alto grau de abstração, mas que por serem "neutros" em relação às diferentes concepções morais, podem julgá-las "de cima"

Não tem criticado minha posição em termos valorativos? Vc deve estar brincando . E onde vc viu neutralidade minha em relação às diferentes morais? Este “julga-las de cima” talvez seja apenas um reflexo de um provável complexo de inferioridade seu, não condiz em nada com a realidade.

“como a liberdade é essencial ao ser humano se não há, segundo você, sequer uma única essência humana?”

É simples, não há uma única essência humana, há muitas, porque o ser humano é diverso, não é igual. Portanto não há contradição alguma, a não ser em seus olhos.

“o fato de algo ser "essencial ao ser humano" não necessariamente o qualifica como algo a ser exaltado pela moral.”

Mas a liberdade é essencial ao ser humano e isto a qualifica como algo a ser exaltado pela moral. A não ser que sua moral veja a liberdade como algo ruim, o que parece ser o caso.

Decida-se, meu caro, vc está bem confuso aqui, sua moral é relativa à capacidade de cada um ou é universal e igual para todos? Quero ver vc resolver esta tua contradição.
miguel_3#186
“Afora isso, sua única crítica à moral cristã é de que seria uma moral "de rebanho", "de escravos", "decadente" e "que deu origem ao socialismo". Destes, o único ponto que não envolve propriamente juízo de valor é o último, mas é justo o mais certeiramente falacioso. Pois se lhe deu origem foi por corrupção, e não por inferência. Os demais, enquanto pretendem ter algum valor objetivo, são igualmente falsos.”

Mas vc não havia ainda percebido que a moral cristã que eu critico é justamente aquela parte dela que chamo de decadente?

Estou começando a ter pena de vc , meu caro, acho que vc está tão nervoso que não consegue mais parar de escrever tentando justificar o injustificável, e agora está apelando para ataques pessoais, é lamentável.

A essência de uma ação só é moral se ela for interpretada através da moral. Mas pelo visto vc só enxerga ações morais pela sua frente de tão obcecado que vc está por ela.

Se eu sou portador da verdade é uma coisa questionável, mas o engraçado é vc colocar esta questão. Por acaso vc tem algo contra a verdade?

“em algum momento você chegou a cogitar a possibilidade de estar errado?”

É simples, meu caro, se eu estou errado, prove.

“Só o que fez foi me dizer que a minha concepção de moral está errada porque, ora bolas, ela não coincide com a sua”

Releia o que eu já escrevi que vc vai ver que eu tenho argumentado acerca de seus erros, e não apenas dizendo que são errados.
massasofrida#187
bush pai o lançou hoje
albertoleopoldo#188
Putz, Miguel, você é bem ruinzinho, hein?

Evidentemente, eu não falei da metafísica como ciência tendo em vista o conceito de ciência natural positiva, mas a partir de uma perspectiva mais ampla, de matriz clássica. É óbvio que a Metafísica é uma área de estudo (assim como a Física), mas se refere a uma área da realidade (se quiser, a realidade metafísica). Sinceramente, parece que você nunca estudou Filosofia na vida.

Mas, repito, a distinção é irrelevante, posto que minha crítica é às suas posições e não à realidade mesma.

Creio que você nem sequer saiba o que é um círculo vicioso, e, se o sabe, não conhece o seu valor operativo. Evidentemente você não pode discutir um sistema de atribuições valorativas "argumentando" com base nas mesmas atribuições valorativas do sistema considerado. Ou você parte de considerações de grau abstrativo superior ou fica andando em círculos.

É claro que eu condenei as suas posições como incompatíveis com as minhas, mas ainda as reputando repugnantes dispus-me a avaliar a sua coerência interna. Em nenhum momento você mostrou a mínima capacidade de enfrentar o debate nesses termos. Suas conjecturas, aliás, acerca dos meus estados mentais, do meu "ressentimento" ou "complexo de inferioridade" não possuem a mínima relevância para a discussão (aliás, é apenas mais uma forma de cometer uma petição de princípio - quem não engole a sua posição deve ser porque tem "problemas").

Quanto à sua consideração sobre a liberdade, eu estava simplesmente apontando um non sequitur, um raciocínio mal fundamentado. Falei até que a liberdade possui um papel determinante na moral cristã (ou "na minha moral", se preferir), mas a sua justificativa é que está inteiramente fora dos eixos, o que mostra quão frágil é a sustentação que você faz do seu "sistema".
albertoleopoldo#189
"Decida-se, meu caro, vc está bem confuso aqui, sua moral é relativa à capacidade de cada um ou é universal e igual para todos? Quero ver vc resolver esta tua contradição."

A confusão, como a contradição, só existe na sua cabeça. A moral não é "relativa à capacidade de cada um", mas as exigências individuais são "moduladas" conforme a capacidade de cada um, aliás justamente porque a moral é universal e os indivíduos são diferentes. É um princípio fartamente empregado no Direito, aliás. A imputabilidade (e aqui também o mérito) pode ser atenuada ou até eliminada, por exemplo, nos casos em que o discernimento do indivíduo está afetado.

Onde está o ataque pessoal, amigo? Creio que você anda vendo coisas. A minha defesa do Cristianismo é invariavelmente do cristianismo ortodoxo, derivado da tradição apostólica e interpretado pelo Magistério da Igreja. Se essa é a variante "decadente" do Cristianismo, é favor apontar onde está o seu ponto alto ou onde está o meu erro de análise. Pois desconheço qualquer ponto da Tradição cristã em que se tem defendido outra coisa que uma moral universal, e que podem ser santos reis, escravos, homens sempre constantes na fé ou convertidos de uma vida de pecados (até mesmo no leito de morte).
albertoleopoldo#190
"A essência de uma ação só é moral se ela for interpretada através da moral. Mas pelo visto vc só enxerga ações morais pela sua frente de tão obcecado que vc está por ela."

Acontece, Miguel, que você não estava interpretando "a essência de uma ação", mas sim justificando-a como uma de "légitima defesa". Ou você se retrata ou mantém a incoerência. Além do mais, tradicionalmente a "essência" de uma coisa não se identifica senão pela análise das condições transcendentais (ordem de abstração metafísica) de sua existência, portanto requer um tipo de consideração uniforme (que, aliás, nem chega perto da moral). Você pode, é claro, estar usando aqui "essência" em sentido equívoco, de modo a falar, por exemplo na "essência moral de uma ação". Mas se o fizesse, sua afirmação é meramente tautológica.

Mantenho o que eu disse: justificar uma ação como "legítima" ou "ilegítima" só pode ser feito através de considerações morais (e nada tem a ver com "determinar a essência de uma ação", seja isso o que for).

Quanto à sua questão referente à verdade, somente reitero: mesmo que você estivesse certo, e a sua posição com efeito se aproximasse mais da realidade, o fato de estar com a verdade não o tornaria por isso mesmo mais apto a defendê-la. Não basta dizer "as coisas são assim" porque pretensamente você sabe que elas são assim, mas, se há quem discorde de você, buscar convencê-lo com base em argumentos que lhe sejam aceitáveis.

Sair-se dizendo: "prove que estou errado", quando nem sequer se dá o trabalho de enunciar as razões pelas quais eu poderia aceitar que você está certo é um brutal deslocamento do ônus da prova. Até aqui praticamente tudo que tenho feito é mostrar a incoerência da sua argumentação. Em nenhum momento eu afirmei que a "moral aristocrática" é intrinsecamente inconsistente (tenho, a propósito, dado sugestões de como torná-la mais defensável - em termos lógicos).
albertoleopoldo#191
E até aqui você não mostrou um único argumento a me mostrar "porque estou errado", limitando-se a dizer que eu "não entendo bem as coisas" e atribuindo à minha posição os qualificativos já mencionados.
albertoleopoldo#192
Ah, teve mais uma (Miguel é uma fonte inesgotável):

"É simples, não há uma única essência humana, há muitas, porque o ser humano é diverso, não é igual. Portanto não há contradição alguma, a não ser em seus olhos."

Não, não é simples. Se não há uma única essência comum a todos os homens (ainda que se possa falar em essência individual - haecceitas - ou "subespecífica"), não se pode falar em uma característica "essencial ao homem". Aliás, o próprio termo "homem" seria usado em sentido equívoco (ou no mínimo analógico), de modo que, para evitar anfibolias, deveria vir sempre acompanhado de sua qualificação própria.

O fato de que há seres humanos diversos não afeta em absoluto o argumento.

Miguel, um conselho: vá estudar um pouquinho mais.
miguel_3#193
Alberto,

Tuas tentativas de me desqualificar a qualquer preço, usando e abusando de sofismas pueris, são patéticas e irrelevantes, me concentrarei em seus argumentos, muito fracos, por sinal.

Vc continua não sabendo a diferença entre ciência e metafísica. Se vc estava se referindo ao conceito de ciência no sentido clássico vc só falou besteira, como se os filósofos clássicos não fizessem distinção entre ciência e metafísica.. Platão, por exemplo, filósofo clássico, considerava a ciência apenas como uma introdução à filosofia.

“Evidentemente você não pode discutir um sistema de atribuições valorativas "argumentando" com base nas mesmas atribuições valorativas do sistema considerado. Ou você parte de considerações de grau abstrativo superior ou fica andando em círculos.”

Frase muito bonita, Alberto, mas sem efeito algum, já que meu pensamento não é sistemático e não se enquadra dentro de nenhum sistema. Minhas atribuições valorativas partem de mim mesmo, não de algum sistema. Talvez isso deixe vc perplexo, mas isto se explica, é o seu modo certinho e enquadrado de pensar que quer me dizer o que eu posso ou não posso fazer em termos de pensamento. É aquele teu exercício autoritário da moral transposto agora para o pensamento, tentando impor regrinhas.
miguel_3#194
“É claro que eu condenei as suas posições como incompatíveis com as minhas,”

Vc me condenou? Opa! Sei, vc me considera um criminoso por ter posições incompatíveis com as suas, não é, sr arrogante?

“Suas conjecturas, aliás, acerca dos meus estados mentais, do meu "ressentimento" ou "complexo de inferioridade" não possuem a mínima relevância para a discussão”

Da mesma forma que as suas a respeito da minha “postura de portador da verdade”, não é? Mas se não era relevante porque começou com este joguinho, meu caro?

“Onde está o ataque pessoal, amigo? Creio que você anda vendo coisas.”

Aqui:

“isso só mostra a criatura bicéfala e incoerente que você é.”

E isto mostra e comprova o quanto vc é hipócrita, e ainda se faz de sonso querendo passar a imagem de bom mocinho, é lamentável. E sua tentativa de querer me colocar como ofendido é patética, como se eu me ofendesse com bobagens. Qualquer tentativa sua de querer fazer alguma espécie de “análise psicológica” a meu respeito vai ser inútil, meu caro, não perca tempo com este tipo de sofisma barato.

“Sair-se dizendo: "prove que estou errado", quando nem sequer se dá o trabalho de enunciar as razões pelas quais eu poderia aceitar que você está certo é um brutal deslocamento do ônus da prova.”

Não há deslocamento nenhum de ônus da prova, é vc que cogitou a possibilidade de eu estar errado, portanto o ônus da prova é seu, e é o que vc tem tentado fazer, desde o início, mas sem sucesso, independentemente de eu anunciar ou não razões pelas quais vc poderia aceitar meus pontos de vista, o que seria inútil, é óbvio, pois vc é um fanático moralista que não consegue avaliar ou valorar uma ação a não ser pelo prisma da moral. Se vc tentasse encaixotar uma ação artística ou a própria arte dento de seus parâmetros morais vc iria quebrar a cara, pois a arte é um bom exemplo de algo que transcende valores morais.
miguel_3#195
Entendo seu empenho em defender uma moral cristã como sendo universal, talvez como bom cristão que vc seja, mas em vista das diversas morais existentes no mundo ao longo da história é óbvio que esta pretensão de universalidade fica somente na pretensão. Não existe uma moral universal, como venho dizendo. A moral, ao valorar conceitos que em si mesmos não são morais, jamais vai ser universal, pois estes mesmos conceitos sempre vão ser valorizados de forma diversa dependendo da cultura e do grau de consciência do indivíduo e de uma sociedade, produzindo morais diferentes.

“justificar uma ação como "legítima" ou "ilegítima" só pode ser feito através de considerações morais”

É claro que eu posso valorar a legitimidade de uma ação sem ser através de considerações morais, arte, como citei, é um exemplo. Creio que não preciso nem me estender a este respeito, que só não é óbvio para sua cabeça moralista.

Minha defesa do aborto, em casos específicos, e apenas no início da gestação, como já disse, não é essencialmente moral, pois depende não somente de uma valoração moral, mas daquilo que é a base de qualquer valoração moral, ou seja, a consciência, e esta inclui uma visão de mundo que transcende a moralidade, embora não a exclua. Ora, apesar de eu defender uma moral aristocrática, que diferencie os indivíduos segundo seu grau de desenvolvimento espiritual, esta moral não é o único critério para valorar uma ação, já que ela estará sempre subordinada à uma visão de mundo que a transcende.
miguel_3#196
Aqui vc foi espetacular, demonstrando de forma clara seu grau de fanatismo moral e o quanto sua vontade de moral universal não passa de um exercício de autoritarismo moral ditatorial:

“O uso da pílula seguinte configura homicídio doloso qualificado. Ou no mínimo tentativa de homicídio (quando não há fecundação).”

Absurdos como este tipo de raciocínio, que quer qualificar como crime o uso de pílula do dia seguinte mesmo quando não há fecundação só pode ser fruto de uma moral ditatorial e cega que quer subordinar toda a legislação sob as asas desta mesma moral ditatorial que de universal só se iguala faculdade imaginativa universal do ser humano, justamente por ser fruto de uma imaginação descontrolada.

Querer defender de forma absoluta a vida do embrião fruto de um estupro desconsiderando todas as circunstâncias hostis à vítima só pode ser fruto de uma visão de mundo que, primeiro, desconsidera a própria existência de um mundo espiritual habitado por almas que encarnam e, segundo, que essas almas que encarnam nada tem de inocente, pois são almas como as nossas, cheias de imperfeição e que só encarnam porque tem karmas ainda por resgatar e, terceiro, desconhece o próprio mecanismo da encarnação, não sabendo que a alma se encarna aos poucos, gradualmente, e que portanto no início da gestação esta ligação é ainda muito sutil, não provocando grandes sofrimentos em caso de aborto, a não ser em almas desesperadas por encarnar e que mesmo assim, terá outras oportunidades de encarne.

Mas é claro, não se pode exigir estes tipos de consideração de alguém que somente considera a visão católica do mundo espiritual como verdadeira e que numa moral cega descarta até a possibilidade de existência destes fatores.

Alberto, vc é inteligente, mas lamentavelmente sua visão de mundo, da filosofia e da espiritualidade é muito limitada e pobre, e assim vc não consegue abarcar fenômenos que estão além de sua visão estreita e uniforme.

No final das contas quem fica girando em círculos é vc...
albertoleopoldo#197
Miguel, este tópico está ficando cansativo e desinteressante. Eu ainda o respondo por consideração aos demais participantes.

A cada participação sua, você afunda mais.

Perceba que você não respondeu a nenhum dos meus argumentos, não apresentou uma só objeção em termos lógicos, racionais.

Sobre a sua insistência inútil e irrelevante acerca do conceito de Metafísica: que primeiro fique claro que Platão nunca usou (nem poderia usar) o termo, posto que foi inaugurado por Andrônico de Rodes ao catalogar as obras de Aristóteles, designando com esse título aquelas que deveriam ser lidas após [os tratados d]a Física (e daí o nome). Tratava-se justamente da ciência das primeiras causas e princípios (ou "filosofia primeira" - ciência das ciências, no ver de Aristóteles), ou, equivalentemente, do ser enquanto ser, da substância (o ser em sentido primário) e de Deus (o Ser por excelência). É certo que Platão tinha uma idéia de "ciência" que corresponde ao conhecimento "infra-noético" e precede na ordem da cognição o objeto próprio da dialética, sendo esta, aliás, um método (classicamente, o "método da divisão", que mais caracteriza a sua segunda etapa, a descendente - do universal apreendido na etapa anterior "iluminando" os particulares) para a obtenção do conhecimento das idéias. Tal "ciência" corresponde de forma muito aproximada ao que Sto. Agostinho chama de ratio inferior, mas de fato precede a verdadeira ciência (epistéme), que é a das Idéias.

Eu tenho usado propositalmente uma terminologia aristotélico-escolástica, justamente porque esta tradição forjou a maior parte do vocabulário filosófico herdado pelos pensadores posteriores (e que chega, aliás, até nós). Em qualquer bom dicionário de Filosofia, você encontrará a referência à Metafísica como "ciência", "estudo" ou "discurso". No mais, repito: a questão é irrelevante (mas não custa esclarecer).
albertoleopoldo#198
"Frase muito bonita, Alberto, mas sem efeito algum, já que meu pensamento não é sistemático e não se enquadra dentro de nenhum sistema. Minhas atribuições valorativas partem de mim mesmo, não de algum sistema. Talvez isso deixe vc perplexo, mas isto se explica, é o seu modo certinho e enquadrado de pensar que quer me dizer o que eu posso ou não posso fazer em termos de pensamento. É aquele teu exercício autoritário da moral transposto agora para o pensamento, tentando impor regrinhas."

Bela justificativa para a evasão. O fato é que há regras de debate, de argumentação, de legitimidade de recursos para a defesa de uma opinião. O seu foco no termo "sistema" é absolutamente irrelevante. Você tem uma opinião (que lhe dá, de alguma maneira - sabe Deus qual, pois nem sequer se organiza sistematicamente - um esquema para atribuições valorativas) que julga defensável (aliás, somente por isso estamos tendo uma discussão). Mas não se pode defendê-la ante quem, desde fora, a esteja contestando, a partir de seus próprios critérios e valorações. Se você simplesmente afirmar que defende tal posição porque assim lhe parece melhor e ressaltar que ela está acima da possibilidade de debate, eu cesso de importuná-lo com as autoritárias regrinhas da lógica, mas - como eu já disse - a discussão ficará emperrada (e, na verdade, jamais deveria ter começado). Enquanto isso, o círculo vicioso se mantém altivo e imponente.
albertoleopoldo#199
"Vc me condenou? Opa! Sei, vc me considera um criminoso por ter posições incompatíveis com as suas, não é, sr arrogante?"

Mas Miguel, condenar por repugnantes ou mesmo por criminosas certas concepções morais que ferem os preceitos básicos da moral que se aceita não é arrogância, é unicamente coerência. O Rev. Jim Jones e os cátaros tinham uma moral (e uma metafísica por trás dela) que legitimava o suicídio, e é simplesmente natural (e mesmo logicamente necessário) que uma tal moral seja condenada por quem repudie esse ato. Ademais, se por exemplo eu defendesse a arrogância como um valor moral positivo, seria arrogância da sua parte me condenar por isso? Pelo menos nesse caso eu teria razões para louvá-lo.

"Da mesma forma que as suas a respeito da minha 'postura de portador da verdade', não é?"

Não, não é. Essa postura é evidente no seu discurso, e qualquer molecote aprendendo os rudimentos da interpretação textual a identificaria. Não se trata de uma inferência psicológica. Depreende-se de imediato de uma afirmação como "Isto é devido à sua mania de colocar a moral como algo de exterior ao indivíduo, não percebendo o quanto uma moral está intrinsicamente ligada à essência do indivíduo."

Também o trecho "isso só mostra a criatura bicéfala e incoerente que você é", além de ser precedido por um condicional, não envolve inferência psicológica alguma, e nem mesmo juízo de valor. É um mero enunciado de fato (com "bicéfala" em sentido metafórico). Se você defende duas posições - que são partes fundamentais da sua visão de mundo - mutuamente incompatíveis, e isso se evidencia num mesmo discurso que invoca ambas, é claro que você é uma pessoa incoerente e "fracionada". Quanto às suas alegações sobre meus estados mentais, perceba que eu nem sequer as contestei (afinal, você pode ter recebido um informe - daqueles confiáveis - dalguma alma desencarnada), mas somente as declarei irrelevantes para a apreciação dos meus argumentos.
albertoleopoldo#200
"Não há deslocamento nenhum de ônus da prova, é vc que cogitou a possibilidade de eu estar errado, portanto o ônus da prova é seu, e é o que vc tem tentado fazer, desde o início, mas sem sucesso, independentemente de eu anunciar ou não razões pelas quais vc poderia aceitar meus pontos de vista (...)"

Não, Miguel, o que eu fiz foi pedir para você cogitar essa possibilidade. E veja bem: cogitar. Eu nem sequer afirmei que você estava errado, de modo que não há aqui nada a provar. O que eu tenho tentado fazer (e deixo aos demais participantes o julgamento do sucesso ou fracasso de minhas tentativas) é simplesmente mostrar as incoerências e defeitos da sua argumentação. É claro que os defeitos do argumentador não invalidam a tese defendida (e eu jamais me arriscaria a defender o Cristianismo se não soubesse disso). Por isso mesmo eu tenho dado sugestões de como tornar a sua "moral aristocrática" logicamente mais defensável. Mas se você insiste em defendê-la - e este é o ponto -, sabendo, ademais, que eu não comungo a priori das suas conclusões, deveria caber a você a demonstração de suas teses. E você se limita a enunciar raciocínios circulares e petições de princípio (isso quando não se dedica à desqualificação do oponente).

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